sexta-feira, novembro 17, 2017

AMIGOS IMPROVÁVEIS

Ali Fazal e Judi Dench como Abdul e Victoria
Estreia: De Stephen Frears, Victoria & Abdul - O Confidente da Rainha narra a amizade entre a Rainha e um plebeu

Eis aqui um filme complicado –  mesmo para um veterano consagrado como Stephen Frears, diretor de grandes filmes como As Ligações Perigosas, Os Imorais e Philomena.

Victoria & Abdul - O Confidente da Rainha narra a história real da improvável amizade entre a mítica rainha da Inglaterra e um plebeu, indiano muçulmano.

Baseado no livro Victoria & Adbul: The True Story of the Queen’s Closest Confidant, de Shrabani Basu, o filme tem lá seus acertos.

Dame Judi Dench retoma com a classe de sempre o papel da Rainha Victoria, papel que já tinha interpretado no filme Sua Majestade, Mrs. Brown (1997), e Ali Fazal, que faz o Abdul, se equilibra bem na ambiguidade entre o puxa-saquismo e a sinceridade de seus sentimentos pela Rainha.

A rica reconstituição de época deve render indicações ao Oscar... 
Mas fica difícil embarcar na história de tão terna amizade entre a líder de um império sanguinário como foi o Britânico na época da dominação sobre a Índia, e um súdito dessa mesma nação oprimida.

No início do filme há o seguinte aviso: “Baseado em fatos reais – a maior parte” (“mostly”, em inglês), tornando ainda mais complicado – pelo menos para quem não leu o livro – saber o quanto da subserviência de Abdul era abjeta e o quanto da estima entre ambos era sincera.

De qualquer modo, o filme tem bom ritmo, uma produção luxuosa, excelentes atores e algumas cenas engraçadas, dado o choque cultural do inusitado encontro.

Se não convence muito pelo lado histórico, pelo menos pode ganhar lá suas indicações no próximo Oscar, dadas suas qualidades técnicas evidentes.

O Abdul e a Victoria da vida real. Foto Wikicommons
A amizade entre Victoria e Abdul começou em 1887, quando este foi escolhido, graças ao seu porte elegante para, representando seu país, presentear a Rainha com uma moeda cerimonial.

Ousado, Abdul lançou um “olhar 43” à senhora, que caiu nos seus encantos.

O resto é história. Ou não.

Victoria e Abdul - O Confidente da Rainha / Direção: Stephen Frears / Com  Judi Dench, Ali Fazal, Eddie Izzard, Michael Gambon / Livre

quinta-feira, novembro 16, 2017

SALVE A RAINHA

Juliana Ribeiro reúne 30 músicos artistas no palco do Vila Velha para celebrar o legado de Clementina de Jesus, a Rainha Quelé

Juliana Ribeiro, foto Dôra Almeida
30 anos depois de ter deixado este mundo, Clementina de Jesus ainda impressiona quem ouve sua voz e seus cânticos ancestrais. Amanhã, a cantora baiana Juliana Ribeiro presta seu tributo anual à Rainha Quelé e sua força agregadora, com mais de 30 artistas no palco do Teatro Vila Velha.

Este é o quarto ano que ela realiza este espetáculo – viabilizado desta feita por meio do edital Arte Todo Dia (Fundação Gregório de Mattos, Prefeitura de Salvador).

No palco, Juliana e banda receberão mais trinta artistas, reunindo músicos, poetas e transformistas, todos unidos na admiração e influência (direta ou indireta) de Clementina: Clécia Queiroz, Edil Pacheco, Gal do Beco, Grupo Barlavento, Lazzo Matumbi, Márcia Short, Pali Trombone, Rita Braz, Maviael Melo, Juracy Tavares, Ferah Sushine e Rainha Lou Lou são apenas alguns que estarão no TVV amanhã.

O mais legal é saber que toda essa movimentação surgiu a partir de um documentário e um desafio: “Em 2012, Chico Assis (coordenador do Cine-Teatro Solar Boa Vista) chamou alguns artistas para assistir o documentário Clementina de Jesus: Rainha Quelé (2011, de Werinton Kermes)”, conta Juliana.

“O filme é muito tocante, e quando ele acabou,  Chico nos provocou para que fizéssemos alguma coisa pela memória dela, que tem uma importancia extrema na cultura brasileira. Então eu também chamei outros artistas para participar de  um tributo”, conta.

E assim, em julho daquele mesmo ano, Juliana realizou seu primeiro espetáculo em homenagem à cantora carioca.

“Resolvemos fazer todo ano nessa data. Foram 40 artistas. Quase fico louca pra coordenar todo mundo, mas é que Clementina tinha esse espirito de coletividade, era uma agregadora natural. Não a toa, João Bosco, Paulinho da Viola, Martinho da Vila e muitos outros, todo mundo era fã dela”, relata Juliana.

Para organizar esse baba, a cantora teve que organizar os participantes em grupos: “Quando eu vi que 40 pessoas tinham topado meu chamamento, comecei a junta-los em duplas, trios, quartetos e quintetos para cantar uma música. Assim, todos puderam participar. Isso rendeu muitos encontros inusitados, de pessoas de que nunca cantaram juntas – e cantando Clementina, dando um valor simbólico ainda maior ao evento”, afirma.

Outro valor que será agregado ao evento é que ele será gravado em vídeo e disponibilizado – uma música por vídeo – na Biblioteca Digital Gregório de Mattos.

“Uma das contrapartidas deste edital é a produção da memória digital. Todo o show será gravado em formato de cápsulas musicais. Cada número vai ser gravado e editado em um clipezinho para o  site da Fundação”, conta.

Clementina, foto Danilo Pavani / Cedoc FPA
Memória da diáspora

Nascida em 1901, morta em 1987, Clementina de Jesus surgiu no cenário da música popular brasileira pelas mãos do poeta e produtor Hermínio Bello de Carvalho.

“A avó dela era escrava liberta e a criou no Quilombo de Carambita em Valença, no Rio de Janeiro. A mãe era empregada doméstica, saía para trabalhar e a deixava com a avó. Esta ia lavar roupa no rio e lá ela cantava na frente da neta”, conta Juliana.

Mais crescida, Clementina se muda para a capital fluminense para trabalhar ela mesma em casas de família como doméstica. Na memória, levava os cantos afrobrasileiros que aprendeu com a avó.

No Rio, cantava todos os anos na festa da Igreja da Nossa Senhora da  Penha. Numa dessas, Hermínio Bello ouviu a voz ao mesmo tempo áspera e terna de Clementina e ficou estatelado. Voltou para casa, mas continuou com aquela voz na cabeça, insistente.

“Somente na festa da Penha do ano seguinte ele conseguiu  encontra-la. ‘Olha, estou encantado com sua voz, queria que a senhora viesse gravar comigo’. Ela achou estranho, até porque já tinha 62 anos”, conta.

“Hermínio a recebeu em casa com flores e a levou para a indústria do entretenimento, com o espetáculo Rosas de Ouro. Acompanhando Quelé, ninguém  menos que Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Nélson Sargento, meninos de 20 e pouco anos. Clementina é a memória, a diáspora encarnada. Ela fazia esse elo na voz, sem precisar de discurso. Ela transcende tudo isso”, conclui Juliana.

Tributo a Clementina Ano IV / Com Juliana Ribeiro e vários artistas / Amanhã, 19 horas / Teatro Vila Velha / R$ 20 e R$ 10

quarta-feira, novembro 15, 2017

SUPERAMIGOS SE REÚNEM PARA DEFENDER A TERRA

Estreia: Liga da Justiça sedimenta universo compartilhado de super-heróis da DC em longa eficiente e mais leve que os anteriores 

"Alguém pode desligar essa máquina de gelo seco? Coisa mais demodê!"
Justiça seja feita: Liga da Justiça, o filme (estreia hoje), pode até não ser melhor que a leva mais recente de filmes da Marvel (Guerra Civil, Guardiões 2, Thor Ragnarok), mas não fica muito atrás.

E olha que a produção foi complicada, com direito a saída do diretor, filmagens adicionais e tudo.

Depois da avalanche de críticas negativas de Batman vs. Superman (2016) – nem todas justas, acrescente-se – a Warner / DC e Zack Snyder (diretor) sentiram que o tom de Liga precisava ser um menos sombrio e mais  leve e divertido.

Eis que, para salvar a pátria, entram em cena os novos integrantes da Liga: Flash (Ezra Miller), Aquaman (Jason Momoa) e Cyborg (Ray Fisher), que se juntam ao trio – ops, dupla - já estabelecida nos filmes anteriores: Batman (Ben Affleck) e Mulher Maravilha (a deslumbrante Gal Gadot).

O Superman (Henry Cavill), como se sabe, se sacrificou ao final de Batman vs. Superman para salvar a humanidade.

A boa notícia é que o conjunto tem química, funciona na tela.

Flash rouba a cena direto como o garotão gaiato, servindo de alívio cômico.

Aquaman é uma espécie de Conan O Bárbaro (personagem  que Momoa já encarnou, em 2011) dos mares, cuja brutalidade faz bom contraponto com a sofisticação high tech do Batman.

E o Cyborg ensaia uma personalidade meio atormentada, recebendo um certo apoio da Mulher Maravilha.

Portal interdimensional

"Grande Hera! Olha o tamanho daquele clichê vindo em nossa direção"!
Na trama, acompanhamos o esforço de Batman e Mulher Maravilha para formar uma equipe de super-heróis e combater uma ameaça maior ainda do que as já vistas em Homem de Aço (2013) e Batman vs. Superman.

É na construção dessa trama que reside a fragilidade do filme, cujo roteiro cai em certos velhos lugares comuns dos filmes de ação e fantasia, com direito a objetos mágicos que abrem portais interdimensionais etc e tal.

Tudo bem que os tais objetos já existem nos quadrinhos da DC Comics há mais de 50 anos – e que sim, não dá pra reinventar a roda do cinema de entretenimento de massa assim, do nada – mas que soou clichê, soou.

Descontadas essas bobagens, Liga da Justiça cumpre bem o papel a que se propõe, que é sedimentar o universo compartilhado dos personagens da DC no cinema.

É possível notar que houve um esforço no roteiro retrabalhado por Joss Whedon (que assumiu o filme com a saída de Snyder, depois que o filho deste último cometeu suicídio), no sentido de dar um bom tempo  de tela a cada um dos personagens, preparando o terreno para os filmes solo de Flash, Aquaman e Cyborg.

Agora é aguardar os próximos capítulos desta super saga.

Liga da Justiça / Dir.: Zack Snyder / Com Ben Affleck, Gal Gadot, Jason Momoa, Ray Fisher, Ezra Miller, Henry Cavill e Amy Adams / Cinemark, Cinépolis (Shopping Bela Vista e Shopping Salvador Norte), Cinesercla Shopping Cajazeiras, Espaço Itaú de Cinema Glauber Rocha, UCI Orient (Shopping Barra, Shopping da Bahia e Shopping Paralela) / Livre

terça-feira, novembro 14, 2017

DE MARAGOJIPE, VOVÓ DO MANGUE FAZ VOLTA TRIUNFAL NA CIDADE NATAL E PROMETE SHOW PARA BREVE EM SALVADOR

Vovó do Mangue, foto Carlos Alberto Gomes
Vista com certo desdém tanto por roqueiros ressentidos dos anos 1980, quanto pela garotada afoita que descobriu MPB  um dia desses, a geração  anos 90 pariu inúmeras grandes bandas que, volta e meia, voltam a dar as caras por aí.

De Maragojipe (Recôncavo), a  Vovó do Mangue faz o retorno da vez ao lançar, finalmente, seu primeiro álbum.

Formada no início dos anos 1990, a Vovó atuou até 2007, quando encerrou as atividades. Na ativa, se apresentou no Festival Garage Rock (1998), no Palco do Rock (2000) e na Bienal do Recôncavo (1998, 2000, 2002 e 2004).

"A banda encerrou suas atividades em 2004, principalmente devido às dificuldades de conciliação da rotina de trabalho dos seus membros com o dia a dia do grupo. Foi um momento em cada um estava focado na consolidação da sua vida profissional, estruturando a família, etc. Entretanto, por sermos amigos de infância, nunca deixamos de ter um forte contato um com o outro (mesmo com Gustavo Mello, guitarrista, que mora em salvador). Em 2007, nos reunimos para uma apresentação em comemoração aos 10 anos da Fundação Vovó do Mangue e, durante os ensaios, compomos rapidamente a música Moderno (que está presente no disco, como faixa bônus), o que demonstrou que ainda tínhamos uma consistente interação. Em 2013, Gustavo Mello lança seu primeiro disco solo – Tambor de Corda -, influenciado pela música das religiões de matriz africana, e convida Francisco Alecy (baixo) para uma agenda de apresentações", relata o baterista Luiz Carlos Brasileiro.

"A banda surgiu espontaneamente dum movimento de jovens da cidade, que curtiam skate, literatura, música – coisas desse tipo, um certo tipo de influência 'gringa' do final dos anos 1980. Nesse período, Maragojipe era uma cidade com movimentação cultural muito mais diversificada e pulsante do que hoje. Rolavam vários estilos musicais nos bares (claro que os mais comerciais prevaleciam), teatro, saraus de poesia, etc. A cidade tinha certa aura, que, infelizmente, foi se dissipando nos anos seguintes (parece um ciclo – há dez anos, por exemplo, a cidade tinha voltado a fervilhar; nos dias atuais, reencontrou a decadência). No começo, éramos tidos como rebeldes e radicais (perturbadores da ordem social – rsrsrsr) e constantemente nos deparávamos com certo desdém das pessoas. Mas isso foi logo deixado para trás, e rapidamente conseguimos conquistar espaço na cena local", acrescenta.

Em 1997, ajudou a fundar a ONG Fundação Vovó do Mangue, com projetos nas áreas de cultura, educação e meio ambiente.

Nada mais justo, portanto, que o show de lançamento do primeiro álbum do grupo, neste sábado,  seja justamente na sede da ONG que emprestou seu nome.

“A ideia de fazer o disco surgiu em 2014, quando, nos reencontramos para fazer novas músicas. Bateu a curiosidade: como seria a Vovó do Mangue nos dias atuais? Por outro lado, também não nos sentimos confortáveis em abandonar as músicas antigas. Em 2015, iniciamos a gravação do disco com as nossas principais composições da década de 1990”, conta.

"Fizemos as gravações em três estúdios diferentes. Iniciamos os trabalhos no estúdio Akuarius, em Cruz das Almas (2015), gravando as guias e redefinindo tons, andamentos e pausas das músicas. Lá também foram gravadas as pistas da bateria de todas as canções. Ainda em 2015, pela necessidade de facilitar a logística, nos mudamos para o JP Produções/Nairo Estúdio, em Salvador. Durante esse período, gravamos as linhas de baixo e as principais linhas de guitarra. Foi um momento importante na consolidação da sonoridade do disco, pois tivemos muito tempo para experimentar timbragens, feitos e arranjos. Em 2016 fomos para o WR Bahia, onde finalizamos as gravações e, já em 2017, foram feitas a mixagem e masterização do disco. Toda a produção foi realizada pela banda", relata Brasileiro.

Rock na base de tudo

Vovó do Mangue, foto Carlos Alberto Gomes
Como quase todo roqueiro, os então meninos da Vovó do Mangue ralaram e deram muito a cara pra bater até terem o reconhecimento da própria comunidade: “A banda, juntamente com o movimento de juventude que rolava ao seu redor, foi o embrião de tudo. Foi um processo de amadurecimento que, desde o principio, nos levava para esse caminho – para nós, um amplo envolvimento com atividades sociais, ambientais e culturais em Maragojipe foi somente uma questão de tempo, o que culminou, em 1997, na criação da Fundação Vovó do Mangue. Até hoje os membros da banda participam ativamente da instituição, que possui um expressivo reconhecimento dos seus trabalhos, inclusive por organismos internacionais. Um fato muito interessante nessa história é que, no começo, éramos tidos como ‘rebeldes’ e tratados com certo desprezo por alguns segmentos da sociedade local. Hoje, viramos ‘celebridades’ e somos reconhecidos, respeitados e ouvidos por quase todos. O rock foi a base de tudo”, afirma.

No som da Vovó, uma bem azeitada engenharia sonora conjuga rock e blues com ritmos regionais do Recôncavo – mas sem soar caricatural, um risco sempre presente nessas misturas.

“No inicio da banda, nossas influências eram grupos de destaque do rock nacional. Não muito tempo depois, começamos a descobrir as principais referências do rock mundial. Isso tudo sempre foi um mundo muito fascinante para nós, que despertava a criatividade, a inquietação e a ansiedade e em construir, em produzir várias coisas. O rock (com suas vertentes e matrizes) foi e é uma forte influência. Mas, por outro lado, em Maragojipe, desde a infância, sempre fomos rodeados por sons, manifestações e expressões artísticas variadas. Aqui, a cultura popular é muito forte e presente - por instinto, ela penetra nossos corações e colabora fundamentalmente para a nossa formação enquanto pessoa, enquanto cidadão. Sempre tivemos forte contato com samba de roda, candomblé, filarmônicas, orquestras populares, capoeira, carnaval tradicional, tradições juninas, terno de reis, além da culinária, artesanato e literatura local. Como também não se apaixonar e se influenciar por tudo isso? Num ambiente como esse, teria sido uma fatalidade não buscar e provocar uma mistura de gêneros musicais”, conta.

"(Agora) Vamos trabalhar na promoção do disco até meados do ano que vem. Faremos alguns shows em Salvador (o primeiro em dezembro ou janeiro próximos) e em outras cidades baianas – Feira de Santana, Cachoeira... Vamos também lançar mais dois clipes", conclui Brasileiro.

Vovó do Mangue / Sábado, 21 horas / Fundação Vovó do Mangue (Praça Conselheiro Antonio Rebouças, 16, Centro - Maragojipe) / Ingressos: www.facebook.com/bandavovodomangue



NUETAS

Game, Iorigun, Jell

Game Over Riverside, Iorigun e Sofie Jell são as atrações do Quanto Vale o Show? de hoje.  Dubliner’s Irish Pub, 19 horas, pague quanto quiser.

Retrofoguetes sexta

Os fabulosos Retrofoguetes fazem mais um  show de divulgação do álbum Enigmascope Vol. 1 nesta sexta-feira, no Qattro Gastronomia & Cultura (R. Fonte do Boi) 22 horas, R$ 20 (direito a CD).

Kids, Erasy, Orelha

O festival Supernada – mais uma cortesia do incansável  Kairo, da produtora  NHL – traz os cariocas do Deaf Kids e os feirenses do  Erasy para tocar com as locais  Aphorism, Orelha Seca e Culinária Guerrilha. Punk noise neste sábado, no  Bukowski Porão Bar (Pelourinho), 17 horas, R$ 15.

sábado, novembro 11, 2017

ANJO COM ASAS DE FOGUETE

Alceu Valença traz amanhã à Concha Acústica do Teatro Castro Alves  Anjo de Fogo, no qual faz um passeio por todas as fases de sua carreira cheia de sucessos

Alceuzão. A foto, cedida pela produção, veio sem autor. Quem souber avisa.
Alceu Valença, figura incontornável da música brasileira dos últimos 40 anos, é um dínamo. A novidade quanto a isso é zero, mas quem for no seu show na Concha Acústica amanhã certamente ficará admirado – mais uma vez – com a energia aparentemente inesgotável deste senhor de 71 anos sobre um palco.

A pancada deve vir logo na primeira música, a espetacular Anjo de Fogo, que dá título ao show e foi pinçada do álbum Espelho Cristalino (1977).

Originalmente acústica, a canção ganhou um arranjo elétrico pesado no show Vivo! Revivo! (2015), conduzido pela guitarra do mestre pernambucano das seis cordas (e parceiro de décadas) Paulo Rafael.

“Anjo de Fogo é um show que cobre minha carreira desde a década de 1970 até agora”, conta Alceu por telefone.

“Começa com Anjo de Fogo,  passa por Papagaio do Futuro, Embolada do Tempo, depois vem Espelho Cristalino, Coração Bobo, Solidão, entra nos anos 80  com Tropicana, Como Dois Animais, Estação da Luz. Aí volto ainda mais no tempo e  canto Pagode Russo de Luiz Gonzaga, volto aos anos 70 com Táxi Lunar e por aí vai. É um show de módulos sonoros e poéticos”, detalha Alceu, engatando a quinta marcha.

Dono de memória prodigiosa, Alceu garante se lembrar de todos os shows que fez na cidade. “Me lembro de todos os tempos que fui aí em Salvador. Lembro que fui entrevistado pro seu jornal (A TARDE) pelo (então repórter) Nonato Freire, sobre um show que fiz no Icba (Instituto Cultural Brasil Alemanha). Me hospedei na pensão de dona Germana, que era no Corredor da  Vitória”, relata.

Ele ainda lembra que, durante o show, “um alemão fez várias fotos minhas. Depois  ele me deu uma foto em que eu aparecia com várias pessoas de chapéu. Algum tempo depois fui a Paris e  a usei no cartaz de um show (fala com sotaque francês: ‘grand premiere’’’, ri.

Mestre da cultura nordestina – e portanto, universal – Alceu rejeita dizer que seu som tem pegada roqueira: “Tem uma pegada roqueira, mas não é rock. Nunca fiz parte  de grupo, fiz minha música do jeito que eu queria”, afirma.

“Quem não gostava de rock ficava com raiva de mim por que achava que não podia ter guitarra  na minha música. E quem gostava de rock achava que eu era muito regional. Aí uma vez Luiz Gonzaga assistiu meu show e eu fui falar com ele depois. Achei que ele ia meter o pau. Aí ele  falou (imita um perfeito  Gonzagão): ‘Adorei. Parece uma banda de pífanos elétrica’”, conta, aos risos.

Alceuzão, mesmo caso da foto anterior: sem crédito
As coisas mudam

Artista de peito aberto, que fala o que pensa de forma clara, Alceu vê com preocupação o levante “conservador” que tem perseguido artistas e livres pensadores por motivos, no mínimo, duvidosos.

“Parece que as pessoas estão ficando loucas. Está na hora de parar pra pensar. As coisas mudam, o tempo muda. Veja como a igreja católica mudou. Tenho todo  respeito, mas ela queimou muita gente nas fogueiras (durante a Inquisição). Depois fez uma autocrítica. Então, está no momento de parar e pensar um pouco mais”, lembra.

“Tenho formação filosófica. Gosto de pensar, conceituar. Sou um perguntador, sempre tive essa posição, que vem muito de meu pai, que  dizia: ‘não gosto de fechar questão’. O que eu quero dizer é: vamos deixar que as pessoas se expressem. Essa questão de gênero, vamos deixar cada um ser o que é. As pessoas tem o direito de fazer do corpo dela o que quiserem, não tenho nada a ver com isso”, conclui.

Alceu Valença: Anjo de Fogo / Amanhã, 19 horas / Concha Acústica do Teatro Castro Alves / R$ 80 e  R$ 40 / Camarote: R$ 160 e R$ 80 / Vendas: bilheteria TCA, SACs Shoppings Barra e  Bela Vista e www.ingressorapido.com.br

quinta-feira, novembro 09, 2017

ÉPICO BRASILEIRO

Parceiro de Geraldo Vandré, lenda da era dos festivais de MPB, Theo de Barros volta à cena com Tatanagüê, um dos melhores discos de música brasileira do ano 

Renato Braz e Theo de Barros, foto Guilherme Castoldi
Há  músicos – extraordinários ou banais – que vivem para perseguir a glória, grana e holofotes.

Outros  são mais reservados e, mesmo exercendo a carreira musical, desenvolvem sua arte à sombra, no escurinho dos estúdios.

Um exemplo é Theo de Barros, que aos 74 anos lançou Tatanagüê, álbum que periga figurar em muitas listas de melhores do ano (listas sérias, claro).

Theo, com o perdão do clichê, seria para as massas aquilo que se convencionou chamar de “ilustre desconhecido”. Fãs da tradição da grande MPB, contudo, sabem muito bem quem é Theo de Barros.

“Sempre exerci várias atividades relativas à música.  Trabalhei como arranjador, produtor de discos, publicidade etc. Talvez se eu tivesse me dedicado somente a compor, isto não tivesse acontecido”, observa Theo, por email.

Violonista e arranjador, Theo, carioca filho de alagoano, começou a ser notado quando teve sua composição O Menino das Laranjas gravada por Geraldo Vandré em 1964 – e regravada por Elis Regina no ano seguinte, ajudando a projetar ainda mais seu nome.

Foi em 1966, provavelmente, que Theo teve seu momento de maior popularidade: Disparada, parceria com Geraldo Vandré e interpretada por Jair Rodrigues, foi a vencedora do II Festival de Música Popular Brasileira – empatada com A Banda, de Chico Buarque.

Naquele mesmo ano, formou o Quarteto Novo, uma super banda, que além dele, contava com ninguém menos que Heraldo do Monte, Airto Moreira e Hermeto Pascoal, multi-instrumentistas cultuados mundo afora e de grande importância na MPB.

“O Vandré foi o mecenas do Quarteto Novo. Em contrapartida, ele tinha a nossa exclusividade”, conta Theo.

Em 1967, q Quarteto apareceu no III Festival de Música Popular Brasileira, acompanhando Edu Lobo e Marília Medalha, em Ponteio (de Edu e Capinam), outro clássico.

“Outros compositores queriam o Quarteto Novo para acompanhá-los. No festival seguinte ao de Disparada, nós fizemos Ponteio, com Edu Lobo e Marilia Medalha. Quando o Vandré apresentou o Caminhando... (1968) nós já tínhamos nos separado”, lembra.

Nas décadas seguintes, Theo fez de tudo: música para teatro, filmes, publicidade. “Quando o conjunto (Quarteto Novo) terminou, cada um de nós teve que cuidar da própria sobrevivência. O mercado havia mudado e eu tive que me adaptar à nova realidade”, relata Theo.

Monumento

Renato, Theo, Monica Salmaso e Ricardo Barros. Foto Guilherme Castoldi 
Tatanagüê é apenas seu quarto álbum solo. O último, Theo, é de 2004.

Salvo engano, Tatanagüê é sua obra mais ambiciosa: com 16 faixas, une a tradição da música popular à um rigor sinfônico raras vezes ouvido.

Com arranjos complexos – mas agradabilíssimos aos ouvidos – reúne uma infinidade de músicos eruditos e outros tantos populares.

Aqui, seus parceiros mais constantes são o letrista Paulo César Pinheiro (outra lenda viva por méritos próprios), o cantor Renato Braz e Ricardo Barros, filho e produtor do CD.

Vale lembrar que tatanaguê é um pássaro, que, dizem, alertava com seu canto - muito característico - quando capitães do mato se aproximavam dos quilombos. Muito difícil de ser avistado, é um pássaro quase invisível, o que só aumentava sua eficiência.

“Foi um dos melhores discos que eu já fiz, no que se refere a ambiente de trabalho. Os músicos e convidados foram extremamente carinhosos e pacientes. Creio que esse astral passa para o ouvinte”, diz.

Épico, o álbum é um tour de force pelo Brasil profundo, partindo de ritmos populares como ijexá, capoeira, samba, toada etc para pintar um quadro sobre o Brasil e seu povo – uma obra monumental.

“Cada gênero (musical) tem suas características. É uma questão de se manter fiel a essas peculiaridades”, observa Theo

A voz cristalina de Renato Braz emoldura quase todo o disco, exceção feita às faixas Alguém Sozinho, com Monica Salmaso e Camaradinho, com Alice Passos, igualmente brilhantes.

“Renato e eu já havíamos trabalhado antes. Considero o Renato como um dos nossos melhores intérpretes. Ele tem todas as qualidades para cantar esse repertório”, afirma o músico.

Agora, é aguardar o veterano músico e seus parceiros botarem o pé na estrada para levar essa obra para o Brasil ouvir ao vivo.

“Já aconteceu um show de lançamento aqui em São Paulo, no Auditório Ibirapuera. Estamos pensando em fazer mais um e então começar uma caravana para divulgar o CD. Pode ser que Salvador esteja no circuito”, diz Theo.

Aguardemos.

Tatanagüê / Theo de Barros / Produzido por Ricardo Barros / Independente / Distribuição: www.tratore.com.br / R$ 39,90

terça-feira, novembro 07, 2017

INNER CALL CONVIDA THE CROSS E SOUL WIND PARA SHOW SÁBADO NO SOLAR BOA-VISTA

Foto Rafael Almeida
Sempre em expansão, a cena do heavy metal na Bahia busca novos espaços para apresentar suas bandas e quem, sabe, trazer outras de fora.

A Inner Call, uma das mais ativas surgidas nos últimos anos, dá um bom passo  ao ensaiar, com o show Metal no Teatro, a retomada de um antigo espaço que já viu muito show de rock, o Cine-Teatro Solar Boa Vista.

Sábado, a Inner Call sobe  no histórico palco local com mais duas bandas:  The Cross (veterana pioneira do doom metal)  e Soul Wind.

A iniciativa foi do baterista da Inner Call, Luiz Omar Gonçalves: “Essa oportunidade ocorreu através de edital, o Ocupe Seu Espaço (SecultBA). A princípio será data única. Mas já enviei projeto para outras datas em 2018”, conta.

Salvo engano, shows de heavy metal não costumam ter muito apoio dos poderes públicos, daí a surpresa de Luiz ao ver seu projeto contemplado.

“Confesso pra você que fiquei surpreso quando tive minha proposta aprovada. Sempre estou atento aos editais de cultura e essa é a primeira vez que tive algo aprovado”, diz.

“O Solar Boa Vista é um excelente espaço que já foi palco da cena rock de Salvador nos anos 1980 e 90. Vamos reconquistar esse espaço”, afirma Luiz Omar.

Foto Samuca Marinho
Metal é rock ‘n’ roll, gente

Fundada em 2008, “pausada” anos depois e retomada em 2015, a Inner Call é uma das bandas mais interessantes do rico cenário metálico local: faz heavy tradicional, mas sem abrir mão de elementos de rock ‘n’ roll no som – algo cada vez menos comum no  sisudo metal, o que é uma pena.

Com um álbum lançado, Inner Call, MS Metal Records, 2016), a banda faz neste show uma prévia do segundo álbum.

“Tivemos um 2017 extremamente positivo. Shows em Minas para mais de 30 mil pessoas, pelo interior da Bahia e no maior palco rocker do estado, o Palco do Rock, mais a gravação do single Hades e de nosso segundo álbum, Elementals, disponível a partir de dezembro”, conta.

“Para 2018 já convidamos ótimas bandas locais e teremos surpresas por vir, inclusive com a possibilidade de uma banda argentina. Que este show seja o primeiro de muitos. Que  o público apoie e compareça, só assim conseguiremos manter esse espaço tão importante”, conclui Luiz.

Metal no Teatro / Com Inner Call, The Cross e Soul Wind / Sábado, 17 horas / Cine-Teatro Solar Boa Vista / R$ 30 ou R$ 15 + 1 kg de alimento não-perecível



NUETAS

Asco e Orelha Seca

Asco e Orelha Seca fazem a Terça de Peso no Quanto Vale o Show? de hoje.  Dubliner’s, 19 horas, colaborativo

Popoff no Sesi

Multi-instrumentista virtuoso com longa folha de serviços prestados a nomes como Nana Caymmi, Maria Bethânia e Beto Guedes, Yuri Popoff faz show hoje e amanhã no Teatro do Sesi. O esquema é voz e violão, com o acompanhamento da cantora Luiza Britto e participação da fera baiana Jana Vasconcellos (violão).  20 horas, R$ 50.

Espinhos, Barulho...

O show Viva Rock: A Resistência bota no palco da Quadra Esportiva de São Caetano as bandas Espinhos & Rosa, Barulho S/A, Fridha e Vernal. Domingo, 15 horas, grátis.

segunda-feira, novembro 06, 2017

COURO DE GATO É BOM PRA FAZER TAMBORIM E HQ

Os pioneiros do samba no Rio de Janeiro são lembrados em bela obra de Patati e João Sánchez

A arte em xilogravura...
Expressão máxima da musicalidade brasileira – e do espírito nativo – o samba ainda foi pouco abordado pelos quadrinistas. É de se comemorar, portanto, o lançamento de Couro de Gato, de Carlos Patati (roteiro) e João Sánchez (arte).

Lançado pela Veneta, a HQ é um voo livre sobre as origens do gênero, resgatando alguns de seus pioneiros e suas histórias – o que equivale dizer que também conta um pouco da história do Rio de Janeiro no início do século 20, e portanto, também do Brasil.

Produzida ao longo de dez anos, a obra tem na arte de Sánchez tanto um de seus pontos  fortes quanto um ponto fraco.

Explica-se: inicialmente, a ideia era fazer a HQ inteirinha em xilogravura (técnica de gravura em madeira), especialidade do artista.

“Para meu espanto, depois de pesquisada e escrita, a primeira das três partes iguais do livro estava pronta em um ano! Toda em xilogravura! No entanto, a vida anda, o sujeito não pode desprezar a oportunidade de viajar e aprender”, diz Patati no prefácio.

“João criou um estilo ‘xiloderivado’ para prosseguir. Ele desenhou quando pôde, e as duas outras HQs se esticaram longamente, sem que me faltasse notícia delas. Tudo junto, foram dez anos!”, conta.

Aí é que está: o primeiro capítulo, todo em majestosa xilografia, como se pode ver na reprodução ao lado, acostuma “mal” os olhos do leitor, que, quando chega nos dois outros, se depara com uma arte que, apesar de bonita, simplesmente não está à altura.

Isto prejudica um pouco a experiência da leitura, ainda que fique claro, conforme as páginas avançam, que o artista foi esquentando, evoluindo em seu estilo “xiloderivado”, produzindo, sim, belas páginas mais ao final do livro.

...e a arte "xiloderivada" de Sanchez
Veteranos de guerra

Descontado este desequilíbrio, a HQ em si vale a leitura (e a apreciação de sua arte).

Como já foi dito, ela traz três histórias independentes entre si, ligadas pelo próprio tema e um personagem recorrente, o fictício Camunguelo, um violeiro e compositor de sambas, contemporâneo dos pioneiros que vão aparecendo na história, como Mano Elói, Tia Ciata (que não aparece, mas é várias vezes citada), Ismael Silva, Cartola, Noel Rosa etc.

A primeira HQ, com suas gravuras absolutamente deslumbrantes, ambientada em 1901, mostra  a população de ex-escravos sofrendo o diabo ao voltar das guerras do Paraguai e de Canudos, iludidos pela promessa do governo de uma casa para cada soldado, nunca cumprida.

E aí vemos a origem das favelas (nome da plantinha que vinha nas botas dos soldados chegados de Canudos).

Visto hoje, o episódio é uma amarga lição de história que explica (em parte) o caos vivido pela Cidade Maravilhosa mais de um século depois, fruto, como sempre, do descaso histórico do Estado para com as populações mais pobres.

O segundo episódio também traz uma forte carga histórica ao enfocar a última noite do Morro do Castelo, área de fundação da cidade e que foi abaixo em 1922, a mando do então prefeito Carlos Sampaio, para se livrar da população proletária que lá vivia e deixar a cidade “bacana” para as comemorações do Centenário da Independência.

Na HQ, vemos Camunguelo e  namorada, na véspera da demolição do morro, relembrando episódios como a Revolta da Chibata (1910) e o exílio forçado de revoltosos para Belém, além da lenda do tesouro jesuíta que até hoje cerca a história do Morro.

A terceira HQ é um encontro em um botequim, já em 1930, de Camunguelo com Noel, Cartola e Ismael. O papo gira em torno da venda de sambas, muito comum então, para os cantores do rádio.

Couro de gato – Uma história do samba / Carlos Patati e João Sánchez / Veneta/ 144 p./ R$ 54,90

quarta-feira, novembro 01, 2017

BIGBANDS: FRUTO DE UMA BIG VONTADE COM A BIG UNIÃO DE UMA BIG GALERA

Com duas etapas, mais um Warm-Up e uma versão kids no meio, festival independente começa quinta

Enquanto houver Rogério Bigbross Brito a  resistência segue firme. Depois de dois agitados  esquenta (Warm-Ups), a nona edição do festival Bigbands começa nesta quinta-feira, abrindo, com três  noites seguidas de show, sua primeira etapa.

A segunda etapa é em dezembro (1º e 2) com mais dois dias – tudo no Dubliner’s, com bandas locais, do interior  e também de outros estados.

Ensanduichados entre essas duas etapas haverá mais um Warm-Up (dia 10, com Rosa Idiota, Pastel de Miolos e a banda carioca Zander) e uma novidade: a versão Kids do festival, na Feira da Cidade (dia 19), com a banda teen CTRL-X, mais contação de histórias (temática rocker, claro), pintura corporal, Oficina Orquestra Rock e outras atividades.

"O Bigbands Kids não é uma ideia minha. O Bananada (Goiânia), o Dosol (Natal) já tem suas versões kids, para crianças pequenas e também adolescentes menores de idade, que ainda não podem frequentar espaços noturnos", lembra Big.

Tem mais: sexta-feira (Dubliner’s, 19 horas) rola bate-papo com representantes de onze selos independentes baianos que estarão presentes no festival.

Tudo isso sem edital, sem patrocínio, sem verba pública.

“Tudo culpa da minha rede”, conta Rogério.

Explica-se: nesses mesmos dias, outros festivais de perfil semelhante estão ocorrendo na Bahia e fora dela, com as bandas circulando pelo interior e estados do Nordeste.

“Este mês, só na Bahia tem o Suíça Baiana (Vitória da Conquista), Feira Noise (Feira de Santana) e o Supernada (Catu). Tem ainda o Festival Dosol (em Natal). E vários outros pequenos, que aproveitam essa circulação toda”, conta Big.

“Como a Bahia tá nessa ponte estratégica (geográfica) como a primeira capital do Nordeste, isso  baixa o custo. Junta a parceria do Dubliner’s, que nos empresta a casa com som e luz, fica menos difícil. Porque fácil mesmo, nunca foi”, diz.

Super rifa do rock

Mesmo assim, receber bandas de fora na cidade exige algum dinheiro para bancar hospedagem, alimentação etc. E o que Rogério Bigbross tira da manga? Um recurso ultramoderno conhecido como “rifa”.

Por R$ 30 o interessado leva um ingresso e um bilhete da rifa, concorrendo a uma cesta de produtos dos selos independentes: CDs, discos de vinil (LPs e compactos), camisas, adesivos, fitas cassetes, livros, tatuagem, gravação no Estúdio Caverna do Som, sessão de fotos com fotógrafo profissional e dois períodos de ensaio (três horas cada) em estúdio.

“A rifa cobre um custo básico. Se vender tudo junta R$ 3 mil, o mínimo pra poder pagar toda a técnica e dar um conforto mínimo ao pessoa das bandas que vem de fora”, diz.

Deus te conserve, Big.

IX Festival Bigbands / 1ª etapa: Quinta-feira: Eletric Poison, Graveren e Tyranno (RJ) / Sexta-feira: Antiporcos, Grupo Porco de Grindcore Interpretativo (MG), Kalmia e Macumba Love / Sábado: Tangolo Mangos, Molho Negro (PA), Aldan (MG) e Djalma / Dubliner’s, 18 horas, R$ 30 (com direito à bilhete de rifa)

Mais: www.facebook.com/bigbross.bigs

terça-feira, outubro 31, 2017

PRAZERES SINFÔNICOS

Conduzida por maestro gaúcho, a Salzburg Chamber Soloists executa Mozart, Ravel e outros sexta-feira, no Teatro Castro Alves

Eruditos e descontraídos: Salzburg Chamber Soloists, foto Fabio Borquez
Apreciadores da música de concerto (ou só de música boa, mesmo) ganharam um programão para a noite desta sexta-feira: o concerto da orquestra de câmara Salzburg Chamber Soloists, na Sala Principal do Teatro Castro Alves.

Dirigida e regida por Lavard Skou-Larsen, gaúcho filho de brasileira com dinamarquês, a orquestra inicia em Salvador uma turnê por oito cidades brasileiras, partindo daqui para Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Blumenau, Florianópolis e Curitiba.

“É a primeira vez (que nos apresentamos em Salvador). Estamos muito contentes de começar nossa turnê em uma cidade tão sugestiva, cheia de história e também de espiritualidade. (Este é) Um dos motivos porque fazemos música”, afirma Skou-Larsen por email ao Caderno 2+.

No repertório, uma atenção especial aos compositores franceses, com peças de Ernest Chausson (Concerto para Violino, Piano e Arcos op. 21) e Maurice Ravel (Quarteto Para Arcos em Fá-Maior), além de Mozart (Divertimento em Re-Maior, KV 136) e Anton Bruckner (Adágio Para Cordas).

“O repertório (de nossos concertos) é sempre diferente. Claro que tem várias obras clássicas que tocamos repetidamente, dependendo dos desejos dos organizadores. Tocamos muito Mozart, óbvio, como orquestra de Salzburgo (cidade natal do compositor austríaco)”, conta o maestro.

“Mas desta vez queríamos explorar um pouco a música francesa. E os organizadores nos deixaram livres para programar. Então nasceu este programa maravilhoso com Ernest Chausson, Maurice Ravel e – não pode faltar também – um pouco de Mozart”, diz.

Fazendo jus ao “soloists” (solistas) no nome da orquestra, o concerto terá dois deles: o próprio maestro ao violino e o premiado pianista Phillippe Raskin, diretor artístico do César Franck International Piano Competition (Bruxelas) e do Festival Ressonances Musique de Chambre (França).

Skou-Larsen fundou a SCS em 1991, como uma forma de honrar a memória e o trabalho do pai, Gunnar, que também era maestro.

“No fundo, foi meu pai que, em 1972, fundou uma orquestra de câmara em Salzburgo. Como ele morreu três anos depois,  senti uma certa obrigação de continuar a ideia dele quando alcancei a idade de tomar responsabilidades”, conta.

“Então recomeçei tudo em 1991, que aliás também foi o ano do jubileu dos 200 anos da morte de Mozart”, lembra.

Maestro Lavard Skou-Larsen, foto Fabio Borquez
Brasileiros eruditos

Com diversas gravações (com e sem a SCS) no currículo, Skou-Larsen (em duo com o pianista Alexander Mullenbach) registrou em 1997 três sonatas para violino do compositor brasileiro Camargo Guarnieri (1907-1993) – um belo serviço prestado à música de concerto brasileira e latino-americana, ainda pouco apreciada mesmo por aqui.

“A música latino-americana está conquistando cada vez mais os palcos internacionais da música erudita. Sobretudo quando é tão boa como a de Camargo Guarnieri”, afirma.

“(A música de concerto brasileira é) Muito bem vista. Sobre tudo Guarnieri, Villa-Lobos, (Radamés) Gnatali, (Claudio) Santoro, (Edino) Krieger, (Alberto) Nepomuceno, (Carlos) Gomes etc”, enumera.

Tendo conduzido dezenas de orquestras dos dois lados do Atlântico, o maestro diz não ver diferenças entre músicos americanos ou europeus: “O que é mais diferente é trabalhar com orquestras livres, que se reúnem para realizar um trabalho idealista, muitas vezes com músicos sem contratos fixos, ao invés de orquestras institucionalizadas, aonde o músico é mais um funcionário público e não tão envolvido na escolha do repertório ou no espírito da orquestra”, diz.

“Com as orquestras livres se tem mais prazer, mais empolgação e mais entusiasmo vindo dos músicos. Mas isto em todo mundo é a mesma coisa”, conclui.

Salzburg Chamber Soloists / Sexta- feira, 21 horas / Sala Principal do Teatro Castro Alves (Praça Dois de Julho, s/n) / Cadeiras Fila A à P: R$ 100 R$ 50 / Cadeiras Fila De Q a Z11: R$ 80 e R$ 40 / Vendas: Bilheteria do Teatro, postos SAC dos shoppings Barra e Bela Vista e no site www.ingressorapido.com.br

COM LOQUI IN MOUSIQUI, ALEX POCHAT COMEÇA A DESAGUAR SUA VASTA PRODUÇÃO NA REDE

Alex Pochat. Foto Margarida Neide
Um vendedor de picolé passa pela rua anunciando seu produto. Todos os dias, no mesmo horário, o músico Alex Pochat o ouvia passar.

O pobre do vendedor não sabia, mas sua ladainha diária atormentava o artista. Um dia, Pochat resolve tomar uma atitude para fazer as pazes com seu próprio incômodo.

Chamou o vendedor à sua casa, gravou seu pregão (“Chegou o pi-colééé!”) e começou a criar uma obra em cima dele.

O resultado é Gelatus Adventus, uma peça erudita / dadaísta   de quase oito minutos para piano, clarinete, violoncelo e vendedor de picolé.

“Parece que a arte é um ótimo meio não só de criação, mas também de colocar um ponto final nas coisas. Se você não consegue abstrair algum som de sua cabeça, junte-se a ele”, ensina Pochat.

“No caso, o pregão virou o tema de um trio de clarinetas, e a interpretação da obra por parte de Jorge, o vendedor de picolé, o colocou como agente solista principal em um concerto para quarteto misto de uma nova peça. O compositor e o interpretador, juntos e em alternância, criando e interpretando músicas”, acrescenta.

Gelatus faz parte do álbum Loqui in Mousiki, já disponível nas plataformas digitais e que reúne as principais peças de música de concerto do versátil artista.

"As peças desse trabalho tratam justamente sobre a interpretação que alguém tem de alguma música, seja um performer, um ouvinte ou um crítico musical. E mais: o que se pode fazer criativamente a partir dessa interpretação. Um 'ouvinte casual, como você diz, ao apreciar uma obra, pode gostar ou não daquela música, pode entender ou não as pretensões do seu compositor, mas parece impossível que ele seja imune ao ato de interpretar aquilo que ouve. O que tanto ele faz com essa interpretação quanto o que o compositor faz com a interpretação de sua própria obra, é que é, paradoxalmente, tão fértil e tão negligenciado", observa.

Baixista da banda Cascadura por quase dez anos, Pochat é um estudioso de música (Doutorado pela Ufba), meditação e Yoga (via movimento indiano Brahma Kumaris).

Membro do vanguardista grupo OCA (Oficina de Composição Agora), já participou da organização de duas edições do MAB (Música de Agora na Bahia), que trouxe à cidade alguns dos maiores nomes da música de concerto atual.

Que arcos? São extensões do meu braço! Foto Margarida Neide
Versatilidade = Pochat

Louqui é seu primeiro movimento no sentido de desaguar sua produção na internet – incluindo o espetacular Alex Pochat & Os 5 Elementos (2007), álbum solo de rock.

“Vou lançar ainda as produções com a OCA, os trabalhos como produtor musical  de grupos de candomblé e capoeira,  trabalhos com o Viratrupe (grupo de artistas espalhados no Brasil que faz música, dança, audiovisual e meditação) e os 5 Elementos – com novo álbum saindo da fornalha. E ainda um álbum instrumental para meditação com sitar”, enumera. Tá bom ou...?

“Tomei vergonha e subi na rede o disco dos 5 elementos​. Antes do Carnaval subo o Viratrupe e o de sitar. E  que depois venha o disco novo dos 5 Elementos”, promete.

Ainda sobre o Loqui, no álbum Pochat pratica a música de concerto moderna, um gênero difícil para quem não está acostumado, já que parece prescindir de melodias - e muitas vezes, de instrumentos convencionais - para se constituir enquanto obra.

Ouvindo-o, ficam as perguntas: Os padrões convencionais da música não fazem mais sentido? Partindo disso, o que é música para você?

"Tudo, mais ou menos convencional, faz sentido em música. E as apenas aparentes divergências, de estilo, de instrumental, de gênero, de forma, etc, podem se fundir tanto na mesma música quanto em músicas distintas de um mesmo compositor. Essa é que é a graça. E se eu lhe responder o que é música... vou perder a chance de saber o que você pensa a respeito — pra daí fazer uma musiquinha depois", conclui.

Grande Pochat.

Ouça: www.alexpochat.com



NUETAS

Lucilia e Shirtsleeves

Lucilia In The Music Box e Shirtsleeves fazem a Noite NHL no Quanto Vale o Show? de hoje. Dubliner’s, 19 horas, pague quanto quiser.

Matita Perê no Sesi

A banda Matita Perê faz o show Reino dos Encourados amanhã, no Teatro do Sesi. 20 horas, R$ 30. Recomendo!

Bigbands 2017 é já!

O festival Bigbands 2017 começa quinta-feira, com três nights  para começar: a primeira é da  Metal Union, com  Electric Poison, Graveren e Tyranno (RJ). A sexta é do NHL, com Antiporcos, Kalmia, Macumba Love e  Grupo Porco de Grindcore Interpretativo (MG). E sábado é noite Supernada,com Tangolo Mangos, Molho Negro (PA), Aldan (MG) e Djalma. Dubliner’s, 18 horas, R$ 30 (acompanha uma rifa!).

segunda-feira, outubro 30, 2017

A DURA VIDA DE UM CINEASTA BURGUÊS REVOLUCIONÁRIO

Em Cartaz: Jean-Luc Godard vira comédia em O Formidável, um olhar afetivo de Michel Hazanavicius ao ídolo intelectual francês

Godard (Garrel) e Wiazemsky (Martin) correm da polícia no Maio de '68
Esfinge humana e  ponta de lança da Nouvelle Vague, movimento que renovou o cinema francês (e mundial) em meados do século 20, o cineasta Jean-Luc Godard é o personagem principal do ótimo O Formidável, filme em cartaz em algumas salas da cidade.

Ambientado entre os turbulentos anos de 1967 e 1968, a obra do oscarizado Michel Hazanavicius (O Artista) centra sua narrativa em dois temas: o relacionamento do cineasta (na pele do ator Louis Garrel) com a atriz Anne Wiazemsky (Stacy Martin) e seu engajamento na “revolução”, obsessão de Godard na época.

Na época, protestos pela liberação dos costumes e contra a guerra do Vietnã e as ditaduras na América do Sul e Europa varriam o mundo, especialmente em Paris, culminando na greve geral de Maio de 1968, com estudantes, proletários e intelectuais erguendo barricadas e tacando pedras contra a Gendarmerie (polícia) no Quartier Latin.

Nesse contexto, Godard lança seu filme mais revolucionário, A Chinesa (La Chinoise, 1967), estrelado pela jovem e bela Wiazemsky.

De maneira hábil, o roteiro de Hazanavicius alterna a narrativa entre a recepção do filme com a militância do casal (mais dele do que dela) e o relacionamento difícil, dada a índole complicada de Godard, que fazia questão de ofender todos (conhecidos ou desconhecidos) que o abordavam – afinal, ninguém entendia de cinema e de revolução tanto quanto ele.

Tudo bem ser um alienado de direita, mas por favor não quebre meus óculos
Revolução sem óculos

A abordagem de Hazanavicious é leve e divertida, com o próprio Godard, quem diria,  como alívio cômico (involuntário) em diversas cenas.

Nesse sentido, o diretor marca pontos ao utilizar o recurso de uma piada que se repete ao longo do filme – no caso, a dos óculos do cineasta, que toda hora alguém dá um jeito de pisotear.

A ironia também parece escorrer pela tela em momentos divertidos de metalinguagem, como quando Godard, nu em pelo, reclama da obsessão de alguns cineastas em mostrar gente pelada nos filmes – ou quando ele diz que odeia atores: “Você os manda chorar, eles choram. Você os manda rir, eles riem. Você os manda dizer que odeiam atores, eles dizem! Odeio isso!”.

Fôrra Temerr! Fôrra Temerr! Fôrra Temerr!
Cineasta que faz filmes sobre o cinema em si (vide O Artista), Hazanavicious oferece em O Formidável um olhar afetivo ao ídolo dos cinéfilos intelectuais dos anos 60 e 70, preocupando-se pouco em dramatizar a complicada relação Godard / Wiazemsky.

Esta escolha lhe rendeu críticas de sexista, já que baseou seu roteiro na autobiografia da atriz, Un An Après (Um Ano Depois), além de raso na abordagem do Maio de 68 e episódios como o cancelamento do Festival de Cannes daquele ano, a pedido de Godard e outros cineastas.

Retratado como um marxista confuso e estridente, o Godard de O Formidável deve ser visto antes como comédia. O biográfico saiu devendo.

O Formidável (Le Redoutable) / Dir.: Michel Hazanavicius / Com Louis Garrel, Stacy Martin / Sala de Arte Cinema do Museu, Sala de Arte Cine Paseo, Sala de Arte Cine XIV e UCI Orient Shopping da Bahia / 14 anos