terça-feira, outubro 17, 2017

FERNANDO NUNES E A ALTA ARTE DO BAIXO

Fernando Nunes, foto Marcos Hermes
Um dos mais habilidosos e requisitados baixistas brasileiros, Fernando volta à Salvador esta semana para o show Meu Playlist, quinta-feira, na Varanda do Sesi

Ele é alagoano, mas poderia muito bem ser baiano. Afinal, foi aqui que Fernando Nunes aprendeu, como ele mesmo diz, “a ser profissional”.

Acompanhado do guitarrista Tony Augusto e do baterista Igor Galindo, Fernando vai fazer um passeio nos seus mais de 30 anos de carreira, desde que começou acompanhando o forrozeiro humorista Renato Fechine (o inesquecível “Embaixador da Paz”) até vir para Salvador em plena explosão da axé music, tocando com Sarajane, Luiz Caldas e Margareth Menezes, seguindo para o Rio onde se tornou baixista de Ivan Lins, Cássia Eller e por fim, de Zeca Baleiro, a quem a quem acompanha há anos.

“Meu Playlist é justamente as coisas que eu gosto de ouvir e as músicas que compõem minha carreira, os lugares em que vivi, os artistas com que toquei. Um playlist pessoal, de minha experiência com a música e que ela me proporcionou”, resume Fernando.

"É um show instrumental. As pessoas me conhecem como baixista, então as melodias todas saem do meu baixo. O 'cantor' é o baixo", acrescenta.

Vai que o Paul aparece?

Nesse repertório entram, além de músicas de todos esses artistas citados, os Beatles e Carlos Moura. Quem? “Cantor alagoano que fez muto sucesso com Minha Sereia (aquela do ‘Mergulhar / no azul piscina / do mar de Pajuçara’), que foi meu trabalho como músico profissional”, conta.

“E os Beatles foram o estopim do meu interesse pela música. Eu queria ser o Paul McCartney (baixista dos Fab Four). E no dia do show é  capaz do Paul já estar em Salvador. Então, tudo a ver tocar Beatles. Vai que ele aparece no meu show, sei lá né?”, ri Nunes.

Cheio de amigos na cidade, Fernando ainda recebe no palco o tecladista Luizinho Assis para um participação. Assim, assim como Fernando, é um dos pioneiros da axé.

"Quando saí de Maceió aos 17 anos fui para Pernambuco e fiquei entre Recife e João Pessoa (na Paraíba). Foi lá que conheci o Renato Fechine, que me chamou para tocar com ele. Por coincidência, o baterista era o Toinho Batera (músico de Ivete Sangalo por muitos anos), fiquei quase dois anos tocando com eles por ali, quando o Renato me chamou para Salvador. Aí vim para cá com 19 anos e nunca mais voltei para casa. Eu era muito novo, mas a Bahia me deu régua e compasso. Aprendi a ser profissional ali", relata.

“Quando cheguei em Salvador no meio dos anos 80 fiquei maravilhado com o que estava rolando. Teve duas músicas que determinaram minha permanência na cidade: Jubiabá (Gerônimo) e Ajayô (de Luiz Caldas e Jorge Dragão)”, diz.

“Tinha um lance diferente, uma magia africana, caribenha. Os artistas tinham identidade própria, era uma cena  muito rica. Depois axé virou rótulo e todo mundo se enquadrou”, conclui.

Fernando Nunes: Meu Playlist / Quinta-feira, 22 horas / Varanda do Teatro do Sesi / R$ 30

BÔNUS: ENTREVISTA COM FERNANDO NO PROGRAMA SÍNTESE, DA TVE ALAGOAS



NUETAS

E Colé Mermo?

Hoje é a Noite Colé de Mermo no Quanto Vale o Show?, com Nanashara Vaz e Zuhri. Dubliner’s, 19 horas, pague quanto quiser.

NHL apresenta + 3

Amanhã tem NHL Apresenta, com Soft Porn, Aurata e Las Carrancas. Dubliner’s, 20 horas, R$ 10.

IPA Hop é blues rock

Formada por Rex, Maurício Uzêda e Cândido Amarelo Neto, a Ipa Hop faz show de blues rock quinta-feira na  Rhoncus. 21 horas, R$ 10.

Luedji Luna no TVV

A sensacional Luedji Luna canta no Teatro Vila Velha domingo, 19 horas, R$ 20 e R$ 10.

segunda-feira, outubro 16, 2017

JESUS HIPPIE

Alegoria do mito cristão, clássico Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert A. Heinlein segue atual em tempos de manipulação da opinião pública e conservadorismo hipócrita

Trinca: Heinlein, L. Sprague de Camp e Isaac Asimov. Foto USNavy/Wikicommons
Leitores habituais de ficção científica estão bem familiarizados com o conceito, mas nunca é demais repetir: quase sempre, o que parece uma extravagância com naves espaciais, robôs e alienígenas é na verdade  alegoria que aborda temas de política, filosofia, religião, sexualidade, cultura.

Lançado em 1961, Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert A. Heinlein (1907 - 1988) é um dos melhores e mais bem acabados exemplos da utilização da ficção científica para descrever e quem sabe, tentar modificar a realidade.

Autor de clássicos como Tropas Estelares, O Dia Depois de Amanhã e O Planeta Vermelho, Heinlein é considerado pelos estudiosos um dos Big Three, o conjunto dos três maiores escritores de FC de língua inglesa, sendo os outros dois Isaac Asimov (Eu, Robô) e Arthur C. Clarke (2001).

Em Um Estranho Numa Terra Estranha, Heinlein fez uma exaustiva releitura do mito cristão (ou de Prometeu, aquele que traz o fogo da sabedoria), adaptado para uma visão do futuro  humano.

A trama acompanha a trajetória de Valentine Michael Smith, filho de um casal de pesquisadores pioneiros que o concebem na viagem até Marte.

Pouco depois de chegar ao planeta, o casal morre pelos rigores da viagem e o menino é adotado pelos marcianos.

Uns 30 anos depois, o humano criado em Marte é trazido à Terra para facilitar as relações diplomáticas entre os planetas.

A partir daí o romance entra em uma verdadeira espiral psicodélica por meio do choque cultural entre o marciano e os terráqueos.

Absolutamente desprovido de maldade, Mike, como é chamado, se envolve com uma enfermeira (que se torna sua amante), um médico / advogado / romancista (que se torna seu guru) e diversos outros personagens à sua órbita, um mais exótico que o outro.

Amor livre


A certa altura, Mike resolve fundar sua própria religião, promovendo ideias “revolucionárias” como amar ao próximo e uma certa bondade intrínseca. Seus iniciados – na língua marciana – acabam desenvolvendo poderes psíquicos similares aos dele.

Estas particularidades, além do amor livre pregado – e fartamente praticado pelos iniciados – escandaliza os adeptos das religiões tradicionais e – claro – políticos oportunistas.

O fim dessa história não é difícil de adivinhar.

Cultuado nos anos 1960, Um Estranho... influenciou de forma decisiva a contra-cultura hippie, realmente ajudando a modificar a realidade da cultura ocidental.

No fim do livro, um ensaio defende que Mike é, na verdade, o Arcanjo Miguel.

Um Estranho Numa Terra Estranha / Robert A. Heinlein / Aleph / Tradução: Edmo Suassuna / 576 p. / R$ 69,90

SIR PAUL ESTÁ CHEGANDO

Show de Paul McCartney no Estádio Beira-Rio, em Porto Alegre, não desanima sob a chuva insistente e dá uma prévia do que vamos ver na Arena Fonte Nova sexta-feira. O repórter esteve lá e conta como foi, tim-tim, por tim-tim

Sir Paul, o baixo Hofner e a casaca de sargento.  Fotos Marcos Hermes / T4F
Paul McCartney pode não ter feito uma insistente chuva fina parar na noite da sexta-feira (13) em Porto Alegre, mas mesmo as nuvens baixas e carregadas sobre o Estádio Beira-Rio acabaram contribuindo para o show, absorvendo os fachos dos canhões de luzes coloridas, formando uma espécie de "aurora boreal" (austral, no caso do hemisfério Sul).


Clima psicodélico instalado, Sir Paul subiu ao palco pouco depois das 21 horas, pontual como o lorde inglês que de fato é.

Maroto, passou um dedo na língua e o dirigiu a plateia, testando a temperatura do público. Com uma careta de quem tinha se queimado, tratou logo de mostrar a a que veio com A Hard Day's Night.

Foi o bastante para a cerca de 50 mil pessoas no estádio comprarem um Ticket to Ride (que não foi tocada) a um tempo que parece nunca ter acabado.


Depois da menos conhecida Junior's Farm (do álbum London Town, com os Wings), atacou de Beatles de novo com Can't Buy Me Love.

Voltou aos Wings com a espetacular Jet, que sempre tem um grande impacto no público, que grita "Jet!" e faz o uu-uu-uhh! do refrão a plenos pulmões.

Depois dessa, começou a falar em português com o público, ajudado por uma cola em teleprompter (no chão do palco): "Adoramos estar de volta ao Brasil. É muito bom poder voltar". E mandou Got To Get You Into My Life na sequencia.


Depois tirou o casaco escuro com a faixa de Sargento Pimenta e ficou só de camisa branca o resto do show. 

Entregou o clássico baixo Hoffner ao roadie (uma figura que sempre animava o público quando aparecia) e recebeu uma linda Gibson SG multicolorida para tocar Let Me Roll It (do LP Band on The Run).

Auxiliado pela mesma super banda que o acompanha há uns 20 anos (um show à parte), voltou aos Beatles com I've Got a Feeling (do Let It Be). Agradeceu aos gaúchos e fez uma pausa: "E às gaúchas!", acrescentou piscando um olho.


Na sequência, os telões passaram a exibir os atores Johnny Depp e Natalie Portman, estrelas do clipe de My Valentine (do LP Kisses on The Bottom, de 2012). "Eu fiz essa música para minha esposa, Nancy, que está aqui hoje. Essa é para você, Nance!", disse, sentado ao piano, para o público que gritava. 

"A próxima é para os fãs do Wings", avisou, fazendo um gesto de asas (wings) com as mãos, antes de manda 1985, outra do Band on The Run, o disco pós-Beatles com mais canções no show.


A música que veio em seguida é, sem dúvida, um dos (vários) pontos altos do show: a monumental Maybe I'm Amazed (do LP McCartney, de 1970).

A força desta canção é tal que chega a faltar voz ao senhor de 75 anos no palco na hora do refrão, a despeito da energia sobrenatural que ele demonstra ao longo de 2 horas e quarenta minutos de show). Mas a emoção, a entrega é evidente, a execução dele e da banda é arrasadora - e isso é o que importa.


Após levantar do piano e pegar um violão, We Can Work It Out dos Beatles veio na sequencia. Depois disse que íamos fazer uma viagem no tempo, e mandou a primeira canção que os Beatles gravaram: In Spite of All The Danger, ainda dos Quarrymen, banda de John e Paul pré-Beatles, recuperada nos álbuns Anthology, lançados nos anos 1990. Ao fim, fez a gauchada delirar ao dizer: "Tribom!".


Faixa pouco lembrada do Rubber Soul, mas belíssima em sua melancolia latente, You Won't See Me pegou muitos beatlemaníacos de surpresa, uma das muitas emocões de uma noite inesquecível.


Love Me Do veio em seguida, dedicada ao produtor dos Beatles, Sir George Martin. "Essa foi a primeira canção que gravamos com ele nos estúdios Abbey Road", lembrou, colando depois com a balada And I Love Her.


Marcos Hermes / T4F
Sob a chuva fina que não parava de cair, uma plataforma em que Paul se encontrava se ergueu sobre o palco para um recado importante: "Essa próxima canção é sobre civil rights", acrescentando em português: "Direitos humanos. Believe them, right now (Acredite neles, agora mesmo"), exortou, quase sobre um palanque, antes de tocar e cantar, sozinho, Blackbird, faixa do Álbum Branco.

Possivelmente, a veemência se dê por conta da triste associação dessa música com os assassinatos bárbaros ordenados pelo psicopata Charles Manson na Califórnia, nos anos 1960, que em seu delírio pseudomessiânico, dizia ver na sua letra um prenúncio de guerra racial.


Ao fim da canção, um dos momentos mais surpreendentes do show: Paul começou a batucar no corpo do violão em um ritmo muito familiar aos brasileiros, que imediatamente mataram a charada, passando a berrar "Fora Temer!" no estadio. Uma forma sutil de chamar o coro, onipresente.

Duas faixas do álbum mais recente, de 2013, vieram na sequência: Queenie Eyes e New.


Sentado ao piano, atacou com Lady Madonna para delírio do público, que aliás, não poderia ser mais eclético, com crianças de oito, dez anos a idosos de 70 e lá vai fumaça - como o próprio Paul, diga-se de passagem.

Outra surpresa no repertório veio quando ele anunciou: "Esta, eu John fizemos para os Rolling Stones gravarem", com mais uma performance arrasadora da banda para I Wanna Be Your Man.


Comemorando os 50 anos do clássico Sargeant Peppers, emendou com a ultrapsicodélica Being For The Benefit of Mr. Kite!, adornada por grafismos alucinantes nos telões ao fundo do palco.


Ukulele em punho, avisa que dedica a próxima a George. O povo começa a gritar "Olê, Olê, Olê, Olêêêê Georgê, Georgêêêê". E tome Something no juízo, outro momento de forte emoção no estádio - emoção amplificada pelo arranjo, que começa com Paul solo ao ukulele e depois é atacada pela banda inteira, com aquele solo de guitarra arrepiante. De chorar.

Mais uma do Sargeant Peppers veio em seguida: a suíte A Day in The Life, com sua cacofonia orquestrada dividindo as duas partes da música, uma alucinação em technicolor.


Give Peace A Chance veio colada, com Band on The Run (outra suíte monumental de sua lavra) e a maravilhosa Back on The USSR, sem tempo para respirar.


A essa altura o povo já se admira: esse homem tem 75 anos mesmo? É muita energia. Rá! Ainda não vimos nada.

Mas vemos imediatamente na sequência, com Live and Let Die, um show de explosões, chamas subindo da beira do palco e fogos de artifício, um desbunde multicolorido e calorento.

Hey Jude vem com muitos balões escritos Na Na Na Na flutuando sobre a plateia. Paul e a banda saem, mas todo mundo tá ligado que eles voltam.


Me larga, mulher!


Marcos Hermes / T4F
Não demora, olha eles aí de novo, prontos para começar tudo de novo, carregando bandeiras do Brasil, do Reino Unido e da diversidade sexual (arco-íris), um bom lembrete de que o rock, ao contrário da recente pecha de conservador que tentam lhe pregar, sempre esteve na linha de frente da luta pelas liberdades individuais.

Depois da inevitável Yesterday, o filé de encerramento: Sargeant Peppers (Reprise), anunciando o final, a apoteótica e apocalíptica Helter Skelter e Birthday. Nesta, ele chama um grupo de moças à beira do palco, todas vestidas com seu uniforme azul do Sargento Pimenta.


"Get off of me!" (Me larga!), grita ele, de um jeito engraçado, para mais afoita do grupo, que tenta agarra-lo.


Ele pergunta o nome de cada uma e de onde elas vem. "São Paulo", diz a primeira, que recebe muitas vaias do público gaúcho, fazendo Paul cair na gargalhada. Depois disso, todas do grupo viraram gaúchas. Na saída, ganharam beijinho e abraço do ídolo. 


O show é encerrado com Golden Slumbers e The End, do Abbey Road, com as clássicas palavras: "And in the end, the love you take is equal to the love you make". E no fim, o amor que você leva é igual ao amor que você faz.


Prometendo um "até a próxima", Sir Paul e banda deixam o palco definitivamente, ovacionados.


Mas para nós, soteropolitanos, o show ainda vai começar, nesta sexta-feira, 20. O aviso é muito simples: Salvador nunca viu um show deste porte, escopo e importância. Nunca.


Não esqueçam o balão de oxigênio. Vamos precisar.

O repórter viajou, representando o jornal A Tarde, a convite da Time 4 Fun (produtora do show)

quarta-feira, outubro 11, 2017

DOGS IN SPACE

No dia 3 de novembro o mundo lembrará (ou não, vai saber) da cachorrinha Laika, ejetada há exatos 60 anos para o espaço sideral no interior da cápsula russa Sputnik 2.

Na HQ Laika, lançada pelo selo Barricada (Editora Boitempo), o quadrinista britânico Nick Abadzis faz uma espécie de biografia afetiva da bichinha, que teve triste destino.

Muito provavelmente uma das melhores HQs lançadas no Brasil este ano, Laika consagrou Abadzis, que ganhou um caminhão de prêmios pelo trabalho, entre eles o Eisner Awards (Oscar dos quadrinhos americanos), o Publisher’s Weekly, o Micheluzzi (na Itália) e até o de Melhor Roteiro em um certo Festival do Livro Aeronáutico (oi?) de Le Bourget, na França.

A HQ é um primor de narrativa, deixando bem claro o amor do autor pela personagem principal e os muitos humanos que a orbitam em sua breve trajetória pela Terra.

Com habilidade, ele costura os destinos de Laika, Sérgei Pávlovich Koroliév (engenheiro ucraniano responsável pelo programa espacial soviético), Oliég Gazenko (biólogo russo que selecionava os bichinhos utilizados nos testes) e Elena Dubrovskaia (técnica veterinária) em uma trama perfeitamente equilibrada entre os fatos históricos e a ficção.

Vítima da Guerra Fria

Tirando a parte mais fictícia, em que Abadzis imagina uma mirabolante trajetória para a cachorrinha nas ruas – digna de um filme de Walt Disney – até ser capturada pela carrocinha de Moscou e encaminhada ao programa espacial soviético, a HQ é mais centrada nestes personagens e suas relações antes e durante os testes do programa espacial  que acabaram por levar Laika em sua viagem sem retorno.

A personagem mais interessante, curiosamente, é também fictícia (não há qualquer registro sobre ela na internet), a veterinária Elena Dubrovskaia, que acaba por desenvolver um afeto quase maternal pela cachorrinha – e por isso mesmo sofre  muito com o processo todo de treinamento e por fim com seu descarte em órbita da Terra.

Esta abordagem  poderia ter resultado em uma narrativa piegas, pesada, chorosa. Mas aí é que está a habilidade de Abadzis: em suas mãos, o sofrimento – de Laika, Dubrovskaia e mesmo de Gazenko – é trabalhado de forma sutil.

Vítima de uma engrenagem gigantesca de disputa de poder em plena Guerra Fria que jamais compreenderia, Laika se tornou símbolo da luta contra a crueldade aos animais.

Na época, as autoridades soviéticas disseram que ela teria sobrevivido alguns dias em órbita, mas em 2002, Dimitri Malashenkov, do Instituto para Problemas Biológicos de Moscou, revelou que ela morreu em questão de horas, vítima do estresse causado pelo barulho e pelo calor.

Em 2008, uma estátua foi erguida em Moscou para homenagear a cachorrinha que foi o primeiro ser vivo em órbita da Terra.

Laika / Nick Abadzis / Barricada - Boitempo/ Tradução: Rogério Bettoni / 208 p. / R$ 59

terça-feira, outubro 10, 2017

POETA, MÚSICO E ATIVISTA JURACI TAVARES FAZ DOIS SHOWS PARA COMEMORAR UMA DÉCADA DE ATIVIDADES

Juraci Tavares, foto Marina Cardos
Compositor dos blocos afro Ilê Aiyê, Malê Debalê e Cortejo Afro, o poeta, cantor, compositor e ativista Juraci Tavares faz sexta-feira e sábado o show Dez Anos de Música e Poesia Afro Diaspórica, comemorando uma década de música.

No palco, o cantor e sua banda ainda recebem muita gente boa como convidados: Nelson Maca,  Vera Lopes, Grupo Maringinca, Jota Pê, Ângelo Santiago, Pedro Amorim Filho e Mariana Marim.

Com apenas um álbum lançado, Umblical (2015), Juraci vai incluir no repertório faixas desse disco, composições feitas para os blocos, canções inéditas e releituras: “Ouviremos algumas do Umbilical, outras  que não estão nesse disco e também músicas do Maestro Moacir Santos e do Milton Nascimento”, conta Juraci.

"A África Subsaariana é o cordão umbilical do mundo. O Homo Sapiens nasce no continente africano, (hoje com) 56 países, portanto diversidade é a marca desse continente. Esta diversidade me permite fazer a minha arte sem preocupação definitória (de estilos musicais). Eu gosto de construir canções que permitam que o meu leitor e ouvinte construa as suas imagens a partir da sua visão de mundo. Na minha opinião eu não tenho o direito de fazer do meu olhar o olhar do outro", observa.

Centro de Humanidades

Profundamente comprometido com suas lutas (que são as mesmas de todos nós que desejamos  um país mais justo e humano), Juraci conta estar trabalhando nas composições para um segundo álbum: “Está sendo construído, até porque precisamos continuar erigindo valores que contribuam com a melhoria da humanidade, principalmente para aqueles que marginalizados pelo topo da pirâmide econômica e social”, afirma.

"Na minha condição de sujeito inacabado, não pronto e sempre questionando: quem eu sou, de onde vim e onde vou, me lanço diuturnamente buscando a minha ampliação. Continuo compositor de blocos afro como Ilê Aiyê, Malê Debalê, Cortejo Afro, pois continuam minhas escolas de música e cidadania. Ainda atuando nestes blocos comecei a minha terceira licenciatura em música na Universidade Federal da Bahia e a partir daí comecei a estudar canto. Faço até os dias de hoje, me preparando para assumir a condição de cantor. Nós vivemos em um país em que, na maioria das vezes, as pessoas que fazem ficam invisíveis. Eu afirmei anteriormente a minha condição consciente de ser não pronto e nessa condição o aprendizado foi quase que compulsório. Nestes dez anos eu tenho convivido com grandes pessoas, particularmente, artistas, parceiros, parceiras e me melhorei bastante na música assim como pessoa. Continuo gerundiando a minha condição de sujeito não pronto buscando e construindo caminhos sem me preocupar aonde vou chegar", filosofa.

Morador do bairro do Santo Antônio, Juraci criou lá mesmo o Centro de Humanidades Ossos 21 (por ser localizado na Rua dos Ossos nº 21), onde promove cursos, oficinas e eventos ligados à valorização da cultura afrobaiana.

“A medida que fui tomando consciência de que o Estado Brasileiro nasceu escravista e não cuida de nós, negros, resolvemos entrar em campo para cuidar de nós mesmos. O centro é uma realização coletiva pois ‘Eu sei, só não consigo nada, paralela sem fim, nua rua, reta crua dá em nada’, como diz Nelson Maca. Acredito que o Centro cumpre o seu papel buscando dar aos nossos, negros, formação de pessoas cidadãs capazes de andar com suas próprias pernas”, afirma.

Em um tempo estranho, onde há pessoas que insistem afirmar que não existe racismo no Brasil, Juraci acredita que há pelo menos duas razões para este tipo de comportamento.

“É porque alguns usam isso como conveniência exploratória, enquanto outros não têm um olhar crítico. A canção Por que é Assim?, de minha autoria e Luís Bacalhau, diz: 'Vieram da mesma origem do mesmo coro, do mesmo DNA. Pense neste fato, por que um é chinelo e o outro sapato?'. A engenharia do racismo leva-nos a vê-lo como algo natural e não cultural, Basta olharmos para o topo das pirâmides: econômica, social, educacional etc, para vemos que o Brasil é racista", dispara.

"Um dos grandes exemplos de crueldade da Casa Grande, o Estado Brasileiro, é quando insiste em reduzir a maioridade penal, ônus que recairá somente sobre nós, negros. O estado sabe que educando resolve os males da sociedade, mas não o faz para continuar aumentando a riqueza alicerçada na exploração”, conclui.

Juraci Tavares: Dez Anos de Música e Poesia Afro Diaspórica / Sexta-feira e sábado, 19h30 / Teatro Sesc-Senac Pelourinho / R$ 20 e R$ 10


NUETAS

Ódio, Aloprados

O Quanto Vale o Show? de hoje é a Noite da Trinca Literária,com Todo Meu Ódio (banda punk de Shinna,da Pancreas) e Professor Doidão & Os Aloprados. Dubliner’s, 19 horas, colaborativo.

Muddy Town quinta

O country blues arretado da Muddy Town é a atração de quinta-feira na Tropos. 21 horas, pague quanto quiser.

Esqueleto, Laia

ExoEsqueleto & Laia Gaiatta temperam o som na Rango Vegan (Pelô). Sexta-feira, 19
horas, R$ 10, R$ 15 (lista).

Cine Horror na RV e na Walter

Off topic: mostra Cine Horror, não perca que a programação está assim... um horror! (No bom sentido, claro!) www.cinehorror.com.br.

quinta-feira, outubro 05, 2017

TRÊS VIDEOZINHOS QUE FIZ NO SHOW DOS RETROFOGUETES

WIPE OUT



MISS CUBA



BATMAN THEME

MISSÃO CUMPRIDA

Sequência do maior filme cult de todos os tempos, Blade Runner 2049 se beneficia da visão fresca do diretor e da experiência do roteirista 

K (Ryan Gosling) e seu batmóvel - ops, carro voador mesmo...
Há mais de 30 anos, Blade Runner: O Caçador de Androides (1982) paira no imaginário cinéfilo como o filme sci-fi perfeito, uma espécie de unicórnio: feito por um grande estúdio (portanto, comercial), mas cheio de pretensões artísticas e profundidade filosófica.

Com o passar dos anos, Blade Runner ganhou dimensão mítica, tornando-se, muito provavelmente, o filme mais cultuado de todos os tempos, a própria definição de "filme cult".

Algo assim não deveria jamais ser conspurcado por uma continuação, algo muito arriscado em mãos erradas.

Que bom então, poder trazer pelo menos uma boa notícia em tempos tão sombrios: Blade Runner 2049, a temida (e tardia) sequência, caiu em mãos mais do que  hábeis  para tão arriscada tarefa – no caso, as  do diretor franco-canadense Denis Villeneuve.

Ana de Armas. Me chama pra Cuba que eu vou!
Aclamado por filmes espetaculares como A Chegada (2016) e Incêndios (2011), Villeneuve soube tanto honrar o legado de Ridley Scott – diretor do original e produtor da sequência –, quanto conseguiu imprimir sua própria marca.

Na verdade, isso não deve ter sido tão difícil assim: além de ter o mentor Scott colado na produção, o roteirista também é o mesmo do clássico de 1982: Hampton Fancher – desta vez em dupla com Michael Green (em 1982, a parceria foi com David Peoples).

A forma certeira como o fio da meada é retomado no roteiro, a reconstrução do ambiente noir futurista (imitado à larga desde 1983), o timing mais lento da edição, as atuações intimistas – tudo remete à produção original e colabora na verossimilhança, suspendendo a descrença e tornando possível que cinéfilos e fãs embarquem na viagem: sim, esta é, de fato (finalmente!), a continuação de Blade Runner.

K e Luv (Sylvia Hoeks), ainda civilizados, levando um papo de boa
Transposta esta cancela, é só alegria.

Amplificar, não replicar

Ambientada 30 anos depois dos eventos do primeiro filme, a trama de Blade Runner 2049 acompanha um novo caçador de androides na Los Angeles pós-apocalíptica, chamado apenas K (Ryan Gosling), que, em uma missão de rotina, topa com um segredo que, naturalmente, pode virar o mundo de cabeça para baixo etc.

Em sua investigação, auxiliado por uma espécie de concubina virtual, Joi (a belíssima cubana Ana de Armas), K discute muito com a chefe (Robin Wright, exalando autoridade como em House of Cards), apanha adoidado da replicante Luv (Sylvia Hoeks, implacável) e eventualmente se encontra com o Blade Runner original, Rick Deckard (Harrison Ford).

Harrison Ford reencontra seu Rick Deckard 35 anos depois e manda bem
Aparecendo menos, mas de forma marcante, há ainda o oscarizado rock star Jared Leto (Esquadrão Suicida) no papel de Niander Wallace, o todo poderoso magnata / gênio da Corporação Wallace, a fabricante dos replicantes após aquisição da Corporação Tyrell, vista no primeiro filme – e devidamente explicada no decorrer da trama.

Como não poderia deixar de ser, as questões filosóficas acerca da dualidade homem / inteligência artificial, marca de Blade Runner, continuam aqui, abordadas em diálogos e monólogos sem muito hermetismo – ou mesmo através de símbolos, como o cavalo que aparece aqui e ali desde a versão do diretor do primeiro filme, lançada em 1992 (além do origami feito pelo policial interpretado pelo magistral Edward James Olmos, que volta em 2049, em breve aparição).

Não dá para ser injusto e exigir uma repetição da carga dramática de cenas retumbantes, antológicas, como a morte do replicante Roy Batty (Rutger Hauer no melhor momento de sua carreira) – ou mesmo a perseguição à replicante Zhora (Joanna Cassidy) em meio à chuva e à multidão das ruas de Los Angeles, em 1982.

Jared Leto, RyanGosling, Harrisão e Ana de Armas
Até porque Villeneuve é, de fato, mais contido nesse sentido. Mas o filme é plenamente bem sucedido em engajar o espectador interessado na trama e intriga-lo com certas falas (especialmente as de Niander Wallace, personagem que lembra um pouco o de Anthony Hopkins na série Westworld).

No fim das contas, Blade Runner 2049 não “replica” Blade Runner – mas o amplifica.

Blade Runner 2049 / Dir.: Denis Villeneuve / Com Ryan Gosling, Harrison Ford,  Ana de Armas, Sylvia Hoeks, Jared Leto, Robin Wright,   Mackenzie Davis / Cinemark, Cinépolis Bela Vista, Cinépolis Shopping Salvador Norte, Cinesercla Shopping Cajazeiras, Espaço Itaú de Cinema - Glauber Rocha, UCI Orient Shopping Barra, UCI Orient Shopping da Bahia, UCI Orient Shopping Paralela

ALAÍDE COSTA, A MÃE DA BOSSA NOVA, NESTE FIM DE SEMANA NO RUBI

Alaíde Costa, foto Clarissa Lambert
Apreciadores da Música Popular Brasileira digamos, de raiz, tem um encontro muito sério com duas lendas vivas: a cantora Alaíde Costa, conhecida como  “mãe da bossa nova”, e o pianista e arranjador Gilson Peranzzetta.

A dupla se apresenta amanhã e sábado no Café-Teatro Rubi, com participação do cantor João Senise.

Com Peranzzetta ao piano, Alaíde apresentará  um repertório escolhido a dedo por ela mesma e seu produtor / pianista, com canções eternas de Tom Jobim, Dori Caymmi, Sueli Costa, Ivan Lins,  Fátima Guedes e do próprio Peranzzetta.

“É um repertório bem variado”, afirma Alaíde, por telefone, de São Paulo.

Peranzzetta acaba de produzir o quarto álbum para a cantora, com previsão de lançamento para dezembro.

“Recentemente gravei Gilberto Gil, Se Eu Quiser Falar Com Deus. Deve sair até o final do ano em um disco novo, Harmonias Que Soam e Ressoam”, conta Alaíde.

“Já temos um bom tempo trabalhando juntos, este já é o quarto CD que faço com ele. O penúltimo, Tudo o Que o Tempo Me Deixou (2005) teve letras do Paulo César Pinheiro. E agora, com o Harmonias... que é uma música dele com letra do Nelson Valencia”, diz.

Satisfeita, Alaíde não mede elogios ao parceiro musical. “Ah, eu acho o máximo trabalhar com o Gílson. Me sinto muito à vontade e feliz de te-lo comigo. Além de um grande músico, maestro e pianista, ele é também um grande amigo”, afirma.

O terceiro elemento deste encontro é o jovem cantor João Senise, que aos 28 anos, já gravou quatro CDs e também já foi produzido por Peranzzetta: “O João é um jovem muito talentoso e que tem muito bom gosto na escolha do seu repertório. Vai ser muito legal participar com ele desse encontro com o Gílson”, diz.

“Vamos cantar juntos Eu e a Brisa, do Johnny Alf – com quem gravei a versão original”, lembra Alaíde.

Movimento anônimo

Aos 81 anos, Alaíde está na ativa desde 1955, quando começou como crooner na night carioca.

Logo se enturmou com os músicos da bossa nova, e em 1959 lançou um dos primeiros LPs do gênero: Gosto de Você, com composições de João Donato e João Gilberto (Minha Saudade), Tom e Vinicius (Estrada Branca) etc.

Alaíde seguiu  carreira ligada ao movimento – bossa novista de primeira hora, portanto, fez por merecer o epíteto maternal.

Apesar de aceita-lo sem problemas, a própria Alaíde acha que é também uma grande responsabilidade.

“É um pouco um peso. E nem acho justo. Fui apenas uma das que começou com eles lá, mas tudo bem. (Ainda assim) É muita responsabilidade que as pessoas jogaram em cima de mim né?”. observa, lúcida.

Testemunha ocular de um momento de renovação da MPB, Alaíde lembra que se surpreendeu quando a bossa ganhou o mundo.

“Comecei com ela, era tudo o que eu queria e não tinha. Só não esperei que fosse fazer tanto sucesso como faz até hoje”, afirma.

“Quando eu comecei a bossa nem tinha nome, eram só os encontros dos compositores. Cada um mostrava sua música. Aí de repente alguém, nem lembro quem foi, pôs o nome de bossa nova”, conclui.

Alaíde Costa e Gilson Peranzzetta, com João Senise / Amanhã e sábado, 20h30 / Café-Teatro Rubi (Sheraton da Bahia Hotel) / R$ 80

terça-feira, outubro 03, 2017

PSICODELIA CLÁSSICA DA ALAGOANA MOPHO É O SHOW QUE NÃO DÁ PRA PERDER NO RADIOCA

Leonardo Luiz, Dinho Zampier e João Paulo. Foto Fernando Coelho
Como os leitores da coluna do blog devem saber, no fim de semana teremos um legítimo evento de música independente  – e  interessante  –, coisa rara por aqui: o festival Radioca.

Ainda esta semana, o vespertino da Tankred Snows Avenue trará matéria mais detalhada sobre o festival em si. (E não este blog, pois a pauta não está comigo).

Mas a coluna não podia deixar de dar seu pitaco e destacar o show em que mais aposta: Mopho, a banda alagoana referência em psicodelia, pioneira no revival internacional do estilo que tem no Tame Impala sua ponta de iceberg, finalmente faz seu primeiro show por aqui, depois de 21 anos.

As respostas do JP. O rapaz tem LER...
“Pois é, de fato, quando nós começamos (em 1996) não havia bandas fazendo esse tipo de som. Não considero o Mopho essencialmente psicodélico. Mas fico lisonjeado por sermos lembrados de certa forma como pioneiros desse revival”, conta o band leader João Paulo, que respondeu em folhas de papel escritas à mão e enviadas por email pelo tecladista Dinho Zampier.

Sem fritação no juízo

Com quatro álbuns lançados (Brejo, o mais novo, acaba de sair), o som do Mopho parece saído de uma máquina do tempo: com teclados Hammond, guitarras encharcadas de fuzz e a voz doce de João Paulo flutuando leve em canções bem formatadas, sem fritação.

“O motivo de nunca termos ido a Salvador foi puramente falta de oportunidade. Quando surgiu o convite para o Radioca, ficamos eufóricos”, diz.

“O set list vai ser baseado nos quatro álbuns. Como é nossa primeira vez em Salvador, penso que seria bacana tocarmos as canções que funcionam melhor ao vivo”, diz.

Com oito faixas, Brejo, de qualquer jeito, traz um frescor a mais para o som do Mopho, afirma João Paulo: “Brejo é acima de tudo um registro bem honesto. A maioria das canções havia sido composta há pelo menos cinco anos. Eu diria que é um genuíno disco do Mopho, embora apresente algumas facetas novas em se tratando de sonoridade e dinâmica das canções”.

A psicodelia brasileira, como sabemos, é objeto de culto entre colecionadores e doidões no exterior e o Mopho quase se deu bem lá fora, mas...

"Quando lançamos o primeiro álbum surgiram algumas propostas bem legais. Primeiro, um selo do Japão pretendia lança-lo por lá. Pro motivos de negociação frustrada com a Baratos Afins, isso não se concretizou. Ah, o líder dos Wondermints, uma banda americana que na ocasião acompanhava o Brian Wilson (Beach Boys), falou muito bem do nosso trabalho, tendo o mesmo figurado nos charts das college radios dos EUA", conta.

Único membro original, ele atribui às mudanças constantes de músicos os longos hiatos entre discos.

“Sempre  nos deparamos com mudanças súbitas de formação. Esse é o principal fator para que o espaçamento entre os álbuns seja tão acentuado”, conclui.

Mopho no Festival Radioca / Com Metá Metá (SP), Curumin (SP), Quartabê (SP) e Jadsa Castro / Domingo, 16 horas / R$ 50, R$ 25



NUETAS

Universo, Madame

Aiace Félix: quinta, na Varanda dos Cantadores. Foto Leo Monteiro 
Universo Variante e Madame Rivera fazem a Noite Instinto Coletivo no Quanto Vale o Show? de hoje. Dubliner’s, 20 horas, pague quanto quiser.

Cantadores na Varanda

Maviael Melo, Aiace (foto ao lado), Bule Bule e Roberto Mendes se apresentam na Varanda dos Cantadores. Quinta-feira, 21 horas, Varanda do Sesi, R$ 30.

Cadinho, Gigito, Gazumba

Cadinho Almeida, Gigito e Gazumba quebram tudo no Club Bahnhof. Sexta-feira,  22 horas, R$ 10.

Duda na Varanda

Duda Spínola faz show sábado lançando música nova. Varanda do Sesi, 22 horas.

sexta-feira, setembro 29, 2017

MÚLTIPLO URUGUAI

Viagem: O pequeno grande vizinho ao Sul oferece muitas opções de passeios e paisagens – e quer conquistar de vez os brasileiros

Plaza Matriz, centro de Montevidéu. Fotos: Chico Castro Jr.
Uma vez perguntaram ao ex-presidente uruguaio José Pepe Mujica sobre o trabalho que então exercia.

“Para mim é um emprego qualquer. Tomo banho e vou trabalhar”, respondeu, com o estoicismo que o tornou famoso. Visitar o Uruguai é experimentar um pouco desse estoicismo in loco.

Habitado por um povo trabalhador, mas que não se deixa escravizar – não a toa, detentor do melhor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da América Latina –, o pequeno / grande vizinho ao Sul  guarda muito mais surpresas do que sua bela capital Montevideu deixa transparecer.

Até porque a indústria do turismo é hoje uma das principais fontes de renda do país, tendo recebido grandes aportes de investimento, tanto público quanto privado.

O resultado se reflete numa valorização e numa procura cada vez maior do “destino Uruguai” – como se diz no jargão turístico –, competindo de igual para igual com os outros destinos preferidos dos brasileiro na América do Sul, como  Argentina, Chile e Colômbia.

Palacio Salvo, marco arquitetônico da capital
Razões para isso não faltam. Apesar de pequeno, o Uruguai dispõe de uma enorme diversidade de atrações e paisagens. Das cosmopolitas Montevidéu e Punta Del Este, à histórica Colonia de Sacramento, passando pelo turismo rural e de aventura nas estancias, o enoturismo nas vinícolas e as termas ao norte do país, o Uruguai parece oferecer um pouco de tudo para todos.

Junte a isso o ótimo atendimento nos hoteis, restaurantes e estabelecimentos em geral com a acolhida calorosa do povo e o resultado será sem dúvida uma viagem inesquecível para os brasileiros.

Uma estrela para Ghiggia

Uma coisa é certa: é inevitável começar por Montevidéu (a não ser que se vá até lá de  carro). Fria e enevoada no inverno, agradável e ensolarada no verão, Montevidéu é uma típica grande capital sul-americana: grande e multifacetada, pois é histórica e moderna ao mesmo tempo.

O ponto certo para começar é onde a Avenida 18 de Julio (a principal da cidade) e a Plaza da Independencia se encontram: o impressionante Palacio Salvo, símbolo da arquitetura eclética que marca muitos prédios históricos locais.

A estrela do famigerado (para os brasileiros) Ghiggia, na Peatonal Sarandí
Lá mesmo está o pequeno porém adorável Museu do Tango, uma homenagem da cidade ao gênero musical que nasceu ali – e não na Argentina como se costuma pensar.

Depois de ouvir La Cumparsita em 300 versões (homenageada este ano pelo seu centenário) e comprar lembranças na lojinha, bote o pé no caminho, pois há muito a se explorar nas proximidades.

Só nesta região do centro histórico há o centenário Teatro Solís, a Catedral Basílica (do século VXIII), diversos museus, lojas e a adorável Peatonal Sarandí, uma rua só para pedestres (como o nome indica), cheia de restaurantes de parrilla (churrasco) e lojinhas, além de uma calçada da fama com direito a estrelas para grandes uruguaios – entre eles (Alcides Edgardo) Ghiggia, herói do Maracanazo de 1950.

Uma surpresa a cada atração

Casa Pueblo, arquitetura alienígena e vista de tirar o fôlego 
Localizada em Punta Ballena, a 15 quilômetros de Punta Del Este está, provavelmente, o lugar mais apaixonante de todo o Uruguai – e olha que a concorrência é forte: Casa Pueblo, a majestosa habitação / escultura / museu / hotel erguida pelo artista plástico Carlos Paez Vilaró (1923-2014).

Meio grega (toda branca), meio alienígena, a Casa Pueblo está, na verdade, mais para uma cidadela do que para uma casa, tamanho o seu gigantismo e as labirínticas passagens, plataformas, varandas, escadas, salões, corredores.

Encarapitada no topo de um penhasco, debruça-se sobre uma infinita visão do Atlântico Sul, de onde se avista um pôr do sol de tirar o fôlego.

Além da casa em si e da paisagem, há uma vasta mostra permanente da obra e da impressionante história da vida de Vilaró – que visitou a Bahia nos anos 1950 e era amigo de Jorge Amado, Vinícius de Moraes e Pelé, como atestam suas placas em homenagem.

O cassino do Conrad Punta del Este
Pegue a estrada em direção a Punta Del Este, ali perto, e aproveite para conhecer o mais rico e cosmopolita dos balneários latino americanos.

Frequentado por ricos e famosos do mundo inteiro, conta com muitos hoteis de luxo, restaurantes chiquérrimos, o maior cassino da América Latina (no hotel Conrad), boates luxuriantes, belas praias  e shows com artistas do circuito internacional, que são uma rotina local. Um point obrigatório  do turismo de luxo.

Colonia de Sacramento

Menos ostentatória e mais cultural, mas igualmente atraente é a cidade histórica de Colonia de Sacramento.

Conhecida entre nós, brasileiros, como “a Paraty brasileira”, a cidade, fundada em 1680 pelo português Manuel Lobo (então governador da Capitania do Rio de Janeiro), tem todo o seu centro antigo tombado pela UNESCO como patrimônio da humanidade.

Localizada onde o Rio Uruguai encontra o mar, Colonia foi objeto de disputa durante séculos por portugueses e espanhois, chegando a fazer parte do Brasil após a independência, em 1822.

Foi só com a independência do Uruguai, em 1828, que Colonia passou a fazer parte do novo país ao sul de nossa fronteira.

As casinhas de pedra de Colonia de Sacramento
As heranças portuguesa e espanhola, que dominaram a cidade por séculos, se faz sentir na arquitetura das casas, nas ruínas dos fortes  e também nos azulejos (tipicamente lusitanos) que adornam as ruas.

As encantadoras ruazinhas de paralelepípedos do  centro histórico oferecem uma vasta oferta de restaurantes, bares, lojas, museus e pousadas.

Preste atenção na Calle de los Suspiros (Rua dos Suspiros), uma das mais antigas da cidade, do período português, com casinhas típicas muito coloridas e bem conservadas.

Outro ponto curioso são os farois. Há dois: um todo de pedra, desativado. E um mais novo, no qual é possível subir, pagando-se módica quantia, para apreciar a vista.

Um passeio pela orla de Colonia de Sacramento
Em  noite clara é possível avistar as luzes de Buenos Aires, logo ali, do outro lado do braço de mar entre o Uruguai e a Argentina.

Não a toa, todos os dias, ferry boats vindos da capital portenha chegam todos os dias de manhã ao terminal marítimo, trazendo centenas de turistas, que vão embora no barco que sai de tardinha.

Então, não esqueça: ao visitar Buenos Aires, reserve um dia para conhecer a mais importante cidade histórica uruguaia. É pertinho, não é cara -   e vale muito a pena.

Pegue a estrada à Casita

La Casita de Chocolate e seu clima mágico
De carro, de ônibus ou de van, é uma delícia percorrer as estradas uruguaias, quase sempre em ótimo estado - pelo menos pelas que a reportagem de A TARDE percorreu.

Postos Ancap (estatal uruguaia) e da brasileira Petrobras surgem volta e meia pelo caminho, garantindo combustível, banheiros e conveniências aos viajantes.

Mas o melhor mesmo são as surpresas que as estradas nos reservam.

Uma das mais interessantes é La Casita de Chocolate, uma ultrapitoresca casa de chá localizada em uma estradinha de terra em Pueblo Edén, departamento de Maldonado, próximo à Punta del Este.

O Uruguai, assim como a França, é dividido em departamentos, e não em estados.

A Casita, uma casinha mesmo, é fofa por dentro e por fora. Literalmente, é uma casa de família, que colocou sua força de trabalho e a tradição culinária da região à serviço de chás (muitos da flora local e super aromáticas), chocolates quentes, bolos, doces, tortas e sanduíches para comer rezando.

Todo decorado com livros, louças e peças de arte, e com blues e jazz suaves de trilha sonora, parece um lugar à parte, fora do tempo. Este é o  Uruguai, país cheio de surpresas para levar na memória.

A PRIMEIRA VINÍCOLA

Os parreirais de Juanicó no frio de agosto
A apenas 30 minutos de carro de Montevidéu ergue-se uma espécie de Santo Graal para enófilos do mundo todo: a primeira (e maior) vinícola uruguaia. O Estabelecimiento Juanicó, parada obrigatória para apreciadores da bebida dos deuses, botou o Uruguai no mapa mundial do vinho com a esplêndida, (quase) exclusiva  e ultra seca uva tannat

É no departamento de Canelones, a meros 38 quilômetros da capital Montevidéu, que se localiza uma das vinícolas mais importantes das Américas: é o Estabelecimiento Juanicó, fundada em 1830 por um imigrante  espanhol chamado Francisco Juanicó.

“Ao se mudar aqui para a região, ele percebeu que as pessoas bebiam muito vinho, mas não havia vinícolas na região”, conta Pedro Pohlmann Griboni, o simpático enólogo e guia gaúcho que recebe e instrui visitantes no local e durante as degustações.

Francisco rompeu com a tradição essencialmente pecuária da região: construiu uma cave e começou a vinícola, aproveitando-se do seu clima ameno e do seu solo argiloso-calcário ondulado, o que  favorece a drenagem da água e a produção de vinhos.

Na cave  histórica, vinhos repousam em barris de carvalho francês
“Por cinco gerações, a vinícola permaneceu propriedade da família Juanicó, até que, ali em meados do século 20, ela se torna estatal. Só em 1979 ela foi adquirida por  Juan Carlos Deicas”, narra Pedro caminhando entre os parreirais, ainda vazios no frio de agosto, quando a MUITO visitou o local.

Cheios de planos, Deicas e sua família resolveram levar a vinícola a  patamares de excelência ainda não experimentados por qualquer outra similar uruguaia.

“Nos anos 1970, os vinhos do Novo Mundo (Estados Unidos, Austrália, Chile, Argentina, África do Sul)  começaram a chamar atenção das comunidades enófilas, mas o Uruguai ainda não tinha uma vinícola que o representasse”, lembra o guia.

Foi preciso mais de uma década de investimento, estudos de especialistas internacionais contratados e muito trabalho para, finalmente, o Estabelecimiento Juanicó oferecer ao mundo seu primeiro vinho de padrão mundial.

Foi em 1992 que a família Deicas lançou o vinho Preludio – o nome, emprestado do jargão musical, não foi a toa: trata-se da introdução, do começo de uma peça erudita.

Preludio, o vinho que botou Uruguai no mapa
“Feito com seis uvas (Tannat, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, Petit Verdot e Marselan),  o Preludio ‘92 foi muito bem recebido pela mídia especializada mundo afora. Até hoje ainda está no mercado. Foi neste momento que o Uruguai foi reconhecido como um grande produtor de vinhos”, relata.

Aberta a porteira, a vinícola lança quatro anos depois, em 1996, o vinho que é o seu  maior sucesso: Dom Pascual Tannat Roble.

“Até hoje, uma em cada quatro garrafas de vinho abertas no Uruguai é Dom Pascual”, afirma Pedro.

Com mais de 200 hectares em Juanicó (há mais dois vinhedos da empresa em outras regiões do Uruguai), o Estabelecimiento produz diversos tipos de uvas, mas é mais conhecido pela especialidade da região, a Tannat.

Nativa do sudoeste da França (região de Madiran), a Tannat foi levada para o Uruguai por colonizadores bascos e hoje ocupa 1/3 dos vinhedos do Uruguai, um total duas vezes maior do que o produzido na própria França.

Sua principal característica é sua enorme carga tânica, ou seja: é tanino que não acaba mais. O tanino é um polifenol de origem vegetal que ajuda a proteger as plantas do ataque de herbívoros e microorganismos.

Nos vinhos, os taninos se concentram na casca da uva e são os responsáveis pela sensação de secura que ataca a boca logo no primeiro gole.

Para diminuir a agressividade da sensação, há várias técnicas que amenizam e integram os taninos ao vinho.

Uma das muitas edificações históricas de Juanicó
No Estabelecimiento Juanicó, o Preludio (por exemplo) descansa por três anos em barris de carvalho franceses e norte-americanos. E depois, mais três já engarrafados.

Pesquisas mais recentes apontaram os vinhos puxados no tanino como os mais saudáveis, graças às suas propriedades anti-oxidantes, auxiliando principalmente na redução dos níveis do colesterol.

Notas inescrutáveis 

Considerações enófilas à parte, visitar o Estabelecimiento Juanicó é um passeio encantador mesmo para quem não é exatamente adepto da bebida.

Rodeada de uma natureza exuberante, a vinícola conta com vários prédios históricos erguidos pelos índios guarani, incluindo a cave aberta por Francisco Juanicó em 1830, perfeitamente conservada.

Não a toa, o Estabelecimiento foi nomeado Monumento Historico Nacional pelo governo uruguaio.

Pedro, o guia gaúcho que sabe tudo de vinho
Durante a visita, o guia nos conduz pelos vinhedos e depois pelos prédios, passando pela área industrial e em seguida pelas caves, dando uma verdadeira aula sobre as uvas, suas variedades, os processos de vinificação, de envelhecimento e finalmente, a degustação, onde identifica todas aquelas notas – “couro, ameixa em estado de geleia, frutas vermelhas, chocolate, café” etc – inescrutáveis aos pobres mortais.

Na verdade, não é que haja todos esses ingredientes nos vinhos. “Algumas moléculas presentes no vinho são as mesmas presentes nesses elementos  citados pelos enófilos, daí a sugestão das notas”, esclarece Pedro, já à mesa do restaurante da vinícola.

O almoço, no amplo salão aquecido por lareira, segue o esquema clássico: entrada, prato principal, sobremesa.

A cada passo, um vinho diferente para harmonizar (fora o espumante oferecido nas boas-vindas). O prato principal, claro, não poderia ser outro: parrilla (churrasco).

Só que há pelo menos dois diferenciais na parrilla uruguaia. O primeiro é que o gado (do Estabelecimiento, mesmo) é criado em uma pasto essencialmente plano. Sem subir ou descer encostas (ou seja, sem se exercitar), a  carne permanece macia, macia.

O salão de jantar aquecido pela lareira 
O segundo diferencial é o preparo: a parrilla uruguaia é assada à lenha – e não no carvão, como se costuma fazer.

Resultado: o melhor churrasco que o humilde repórter já teve o prazer de devorar. Destaque para a molleja, nada mais que o rim do gado, que simplesmente derrete na boca e não se encontra para preparar no Brasil.

Após a sobremesa, vale aquela passada na lojinha na loja da vinícola para trazer ao Brasil algumas garrafas de vinho e do azeite de oliva da casa, outra preciosidade, além das lembrancinhas de sempre.

Só não faça como o repórter, que perdeu a noção do valor dos seus poucos Pesos após algumas taças e saiu ligeiramente endividado da casa...

A propósito, sim, eles aceitam cartão de crédito internacional, claro.

Comer, ficar, ver, curtir, lembrar: dicas rápidas

Teatro Solís, o principal palco de Montevidéu
Enjoy Conrad: O hotel, símbolo de Punta Del Este, tem cassino e tudo o que famílias e casais  apreciam

The Grand: De arquitetura curiosa, é a opção mais descolada para ficar em Punta

Regency Way: Bem no coração do bairro de Pocitos, é ótima opção mais em conta para ficar em Montevidéu

Garcia: Parrilla de primeira, no charmoso bairro Carrasco 

La Casita de Chocolate: Nos confins de uma estradinha em Pueblo Eden, uma  adorável casa familiar de chá, doces, bolos. Clima inexplicável, só indo

Carlos Gardel o aguarda à porta do Bar Facal, reduto dos intelectuais
Bar Facal: Tradicional ponto dos intelectuais da capital, tem estátua de Gardel, fonte, chivitos,  garçons divertidos e o melhor sorvete de doce de leite

Estabelecimiento Juanicó: Mais antiga vinícola uruguaia, a 2,5 horas de Montevidéu. O restaurante oferece harmonização dos vinhos da casa com a parrilla. Inesquecível

Puro Verso: Livros, música, HQs: a cultura uruguaia floresce na Peatonal Sarandí

Pulperia de Los Faroles: Excelente opção para almoçar ou jantar em Colonia de Sacramento

Francis: Sofisticado restaurante da capital, nos bairros de Carrasco e Punta Carretas. O matambrillo de porco dá para um casal

A Casa Pueblo nunca é demais
Casa Pueblo: Escultura gigantesca, casa de um grande artista. Ir ao Uruguai e não ver a Casa Pueblo é como não ir ao Uruguai

Teatro Solís: Com 161 anos, o principal palco da capital. Necessário

Catedral Metropolitana: Majestosa, de 1720. Tem que ver

O repórter viajou ao Uruguai (representando o jornal A TARDE) a convite do Ministerio de Turismo de Uruguai

quinta-feira, setembro 28, 2017

FIM DE JORNADA

PERDA: Guido Araújo, ícone baiano do chamado “cinema de resistência”, morre aos 83 anos. A TARDE relembra trajetória marcante

Um dos maiores guerreiros do cinema baiano se foi na manhã de ontem: Guido Araújo, idealizador das Jornadas Internacionais de Cinema da Bahia e documentarista, morreu internado no Hospital Português, de causas não reveladas.

Um dos últimos remanescentes de sua geração, Guido tinha 83 anos e foi de importância fundamental para o cinema não apenas baiano, mas também brasileiro.

Em 1972, em plena vigência do famigerado AI-5, Guido realizou a primeira Jornada de Cinema da Bahia, que ainda não era “Internacional”, mas tinha perfil francamente de esquerda – ele chegou mesmo a ser membro do Partido Comunista –, trazendo sempre filmes de conteúdo social e humanista, documentários, muitos deles de países do bloco socialista ou de países do Terceiro Mundo – América do Sul e África, principalmente.

“Guido era  uma figura emblemática. Saiu da Bahia antes do golpe (de 1964) e voltou no periodo do AI-5, mesmo sendo do Partidão. E certamente sabia negociar, por que a ditadura aceitou ele fazendo a Jornada todo ano”, observa o jornalista e articulista de A TARDE  Raul Moreira, que também milita na seara cinematográfica.

“Ele foi um lutador para que a sétima arte se desenvolvesse no Brasil. Trabalhou muito pela Jornada, trabalhou no Rio de Janeiro, no primeiro filme do Nélson Pereira dos Santos, o clássico Rio 40 Graus, estudou fora do pais (na então Tchecoslováquia), voltou, aplicou o que aprendeu aqui. Sempre lutou pelo cinema, foi um cara que fez tudo mesmo pelo cinema”, afirma Roque Araújo, cineasta contemporâneo de Guido, cameraman dos primeiros filmes de Glauber Rocha.

Sua menina dos olhos, a Jornada, com os anos acabou se tornando cada vez mais difícil de ser realizada, pela falta de recursos.

“Guido usava o cinema com instrumento de combate, e a Jornada era isso. Então ele se apegou muito. Apesar de todos os problemas, aquilo era a vida dele, então ele sofreu muito por isso no fim da vida, se sentiu abandonado”, relata Raul.

“Ele lutou pela redemocratização e, quando chegou um governo de esquerda na Bahia (Jaques Wagner, em 2006) a Jornada foi deixada de lado. Muita gente alegava que estava obsoleta, que era coisa do passado. Mas Guido foi um cara importante como Walter da Silveira, ele elevou a Bahia. A respeitabilidade dele lá fora, no meio dos cineastas alternativos, era enorme. O Brasil vai chorar por Guido”, diz .

“Você conseguir fazer um festival de cinema de esquerda em plena ditadura não era para qualquer um. Mas ele tinha isso, era um conciliador. Quando ele fazia a Jornada no início dos anos 70, aquele galera do movimento do Super 8 (Edgar Navarro, Pola Ribeiro) ele achava que não tinha relevância, mas exibia os trabalhos deles assim mesmo. E esse pessoal achava ele um caretão que usava bigode, meio que se batiam de frente, mas depois, com o tempo, foram se aproximando. Acho que seu único desafeto era (o crítico de cinema) André Setaro (morto em 2014), a quem ele chamava de ‘agente do cinema americano’. E Setaro dizia que ele era um intransigente, um radical”, diverte-se Raul.

Guido em série

Cineasta premiado nacionalmente pelo documentário Samba Riachão (2001), Jorge Alfredo conhecia Guido de longa data, mas não era próximo dele até a premiação do próprio filme no Festival de Brasília.

“Guido era aquela figura que estava em todo canto: nos bastidores, na plateia. Era a força da Bahia, vibrando, torcendo pela Bahia. Achei tao bonito, ‘poxa, que figura’. Me chamou a atenção”, lembra.

Mas ainda não foi ali que ficaram amigos. Editor da revista on line Caderno de Cinema (www.cadernodecinema.com.br), Jorge chamou Guido para escrever um artigo em 2013.

“Foi aí que ele veio com o choque sobre o final da Jornada de Cinema. Todos ficaram perplexos, não podemos nos dar ao luxo de jogar para escanteio um evento de quarenta anos. Procurei Guido  para saber mais, aí vi que não tinha mais condição nenhuma mesmo”, lamenta Jorge.

"A Jornada sempre foi muito acanhada, sem luxos, e ficava achando estranho, 'como não tem recurso?' Fui entender que ele era de outra época, era um ponto fora da curva, ele não coube mais (nos novos tempos), tiraram os recursos, e ainda disseram que foi culpa dele perder a Petrobras )(patrocinadora da Jornada por anos", reflete.

Jorge ficou incomodado com aquilo, remoendo, quando resolveu fazer um documentário sobre o próprio Guido.

“Eu disse: ‘topa fazer um doc?’. Ele topou na hora. Aí começamos um namoro: toda sexta de manhã eu ia lá e ele vinha cheio de papel, documentos, fotos fitas Betacam. Percebi que mais do esse agitador cultural, ele era também um puta cineasta, mas que deixou sua obra em terceiro, quarto plano. Era tudo em prol da jornada”, relata.

Inscrito em editais da SecultBA, Jorge acabou conseguindo duas belas realizações com Guido. A primeira foi a  Mostra Guido Araújo em 2015, que exibiu seus documentários em Salvador, Cachoeira,  Ilhéus, Mucuri e Inhambupe.

A segunda e maior realização foi a minissérie em cinco capítulos para a TVE Bahia O Senhor das Jornadas, exibida em junho último.

“Nesse processo todo, passou muito afeto. Aprendi muito com ele. Guido tinha um abraço muito largo, foi importante pra muita gente, para a animação, para os curta-metragens e documentários”, afirma Jorge.

"Aí quando fomos ao Rio, a convite de Nélson (Pereira dos Santos), em 2015, quando ele comemorou os 50 anos de Rio 40 Graus, ele (Guido) lutou muito pela liberação do filme, que chegou a ser proibido na época, foi um bafafá com direito a carta de Jorge Amado. Aí no (filme seguinte de Nelson) Rio Zona Norte, ele já teve uma participação mais forte. Esse encontro no Rio foi genial. Depois a verba (para a série) saiu, mas não foi tão fácil, a verba saía um pedaço aqui, outro ali, e nisso Guido começou a ir definhando, o pique que ele tinha dado (no início do processo) tinha acabado com essas demoras todas. Aí ele começou a usar bengala, lembrei de Carlitos e fiz com que a bengala fosse um personagem, com ele percorrendo os lugares todos que ele filmou", descreve Jorge Alfredo.

“De Sílvio Tendler a Edgar Navarro, Nélson, todo mundo fala que ele foi exemplo mesmo. Era muito personalista também. Isso aos olhos da nova geração era um defeito, porque ele sempre quis fazer a Jornada daquele jeito e pronto. Mas isso é que era genial: era um espaço diferenciado. Gostaria de ter tido mais tempo com ele. Nossos planos eram muito bons ”, afirma.

Professor

Cineasta diretor de filmes como o documentário Rogério Duarte, o Tropikaoslista, Walter Lima também lamentou a saída de cena de Guido.

“É uma perda enorme para a Bahia e o cinema brasileiro. Guido foi uma pessoa muito importante para o cinema baiano ao dar prosseguimento ao trabalho de Walter da Silveira com a Jornada e os cursos de cinema”, afirma.

“Ele teve um papel muito importante para a formação de uma geração: Edgar Navarro, Pola Ribeiro, esse pessoal todo que veio depois da morte do Walter (em 1970). Como realizador, diria que deixou uma obra pequena, mas como professor e animador cultural foi importantíssimo”, afirma.

A cerimônia de cremação será hoje, no Cemitério Jardim da Saudade (Brotas), às 10 horas.