quarta-feira, fevereiro 14, 2018

CONSELHEIRO VIVO NO GRITO DO METAL

Primeiro disco de heavy metal brasileiro inteiramente gravado com uma guitarra baiana, Canudos, da banda Dorsal Atlântica, é uma poderosa crônica do histórico e eterno abuso das elites contra os pobres

Carlos Lopes e a Matadeira. Foto Dani Dread
Um carioca, pioneiro do heavy metal no Brasil, é o responsável pelo primeiro disco de heavy metal inteiramente gravado com uma guitarra baiana.

E mais: é uma obra conceitual, dedicada à saga de Canudos e Antônio Conselheiro.

A banda é a Dorsal Atlântica, fundada pelo vocalista, guitarrista e agitador cultural Carlos Lopes no Rio de Janeiro, em 1981.

Jornalista por formação e ligado em história e política desde sempre, Lopes contou com a ajuda dos fãs para gravar Canudos, o álbum, via crowdfunding.

Com 13 faixas, Canudos é a obra mais política de sua banda e um manifesto furioso de Lopes contra o atraso imposto ao Brasil pelas elites que insistem em impor o capital acima do social.

“Canudos é o caso mais emblemático de como a sociedade brasileira não muda. O arraial fundado na Bahia por Antonio Conselheiro pode ser comparado hoje a uma favela, uma comunidade, um quilombo ou um acampamento do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto)”, afirma Lopes.

Ao longo do disco, o band leader faz paralelos muito claros entre o massacre de 1897 no sertão baiano e a forma brutal com que qualquer tentativa de insurgência dos mais pobres é tratada no Brasil: “Pedaladas fiscais, argumentação do baixo clero movida a cocaína, capitães do mato e coronéis / Aprenderam a degolar no Paraguai / Brasileiro cordial, conversa fiada”, vocifera, em Gravata Vermelha.

“Troque as panelas por armas, e o resto é tudo igual: o discurso de combate à corrupção, a hipocrisia, os jornais apocalípticos e a classe média urbana com nojo do Brasil profundo. Machado de Assis dizia que no Brasil existem dois países: o país real que é bom, que revela os melhores instintos, e o país oficial, caricato e burlesco”, reflete Lopes.

Místico (talvez como o próprio Conselheiro), ainda que intelectualizado, Lopes conta que a ideia do disco lhe surgiu em sonhos.

“Nunca estive em Canudos. Li Os Sertões (o homérico relato literário de Euclides da Cunha) e vários outros livros, assisti a documentários. Mas o que realmente me motivou, me deu força para seguir adiante, foi uma sucessão de sonhos recorrentes sobre essa ser a ‘missão’, por assim dizer”, conta.

O cadáver de Antônio Conselheiro. Foto Flávio de Barros
“Tanto para homenagear meus antepassados nordestinos, como para colocar em prática um antigo sonho de repensar a história do Brasil através de música, histórias em quadrinhos e animação. Canudos não se encerra nesse disco, se expande e vai além. Projeto regravar Canudos em Canudos, com guitarra baiana e pífanos. Quem sabe? Talvez só Antonio Conselheiro tenha a resposta”, viaja o músico.

Sentimento agreste

Acompanhado do irmão Cláudio Lopes no baixo e de Américo Mortágua na bateria, Carlos logo de início entendeu que Canudos não poderia ser um disco de heavy metal comum.

Daí o detalhe saboroso da guitarra baiana, construída exclusivamente para ele pelo luthier baiano Fabio Batanj.

“Para falar do Brasil e mais especificamente da Bahia, pensei em gravar o disco com uma guitarra baiana que tivesse o som pesado da guitarrona. Desenhei o instrumento e o luthier baiano Fabio Batanj a construiu”, conta.

“Além da guitarra, precisava que os músicos se sentissem desafiados. Como falar sobre o sertão sem estar irmanado com o mesmo sentimento, vamos dizer, agreste? Decidi não ensaiar. Gravamos ao vivo em estúdio sem edições, da forma mais realista possível, inspirado no método Stanislávski de teatro”, acrescenta.

No som, Lopes procurou cantar de forma semelhante aos repentistas, enquanto buscou mesclar ritmos nordestinos ao peso: “Canudos propõe um novo estilo de rock pesado, com melodias brasileiras e cantado como brasileiro. O som não se afasta das origens da Dorsal, ainda é muito pesado, mas rompe com o padrão de mercado globalizado”, conta.

“Artisticamente, sinto-me, e não é que isso seja ruim, um elo perdido entre o mundo atual, servil à cultura dominante e o universo artístico que admiro, que inclui os modernistas de 1922,  Guimarães Rosa, Glauber Rocha, os tropicalistas e os Novos Baianos”, conclui o músico.

Canudos / Dorsal Atlântica / Independente (via crowdfunding)  / R$ 30 / Vendas: www.dorsalatlantica.com.br

ENTREVISTA COMPLETA: CARLOS LOPES (DORSAL ATLÂNTICA)

Carlos Lopes, foto Dani Dread
Porque escolher o tema de Canudos para falar sobre o agora?

Carlos Lopes: Porque Canudos é o caso mais emblemático de como a sociedade brasileira não muda. O arraial fundado na Bahia por Antonio Conselheiro pode ser comparado hoje a uma favela, uma comunidade, um quilombo ou um acampamento do MTST. Lembre de quando um canal de televisão divulgou ao vivo a “invasão” da Rocinha e do Complexo do Alemão no Rio por forças da “lei e da ordem”. A mesma transmissão ao vivo foi usada com objetivos políticos para incentivar patos e panelas. Troque as panelas por armas, mas de resto é tudo igual: o discurso de combate à corrupção, a hipocrisia, os jornais apocalípticos e a classe média urbana com nojo do Brasil profundo. Machado de Assis dizia que no Brasil existem dois países: o país real que é bom, que revela os melhores instintos e o país oficial caricato e burlesco.

Você sempre abordou temas políticos em suas letras no Dorsal. Já passou por um período político-social tão conturbado e retrógrado?

CL: Sou apaixonado por história brasileira e mesmo tendo estudado os vários golpes, eu nunca imaginaria vivenciar um deles nessa altura do campeonato. O desinteresse da massa e a falta de reação popular me recordaram do golpe de 1964 e do de 1889 sobre o qual o jurista Aristides Lobo havia dito que “o povo assistira a tudo bestializado.” Se levarmos em conta a história pregressa vivemos entre ciclos “democráticos” e golpes. Não é novidade... Com o golpe de 2016 esses jovens de direita, talvez semelhantes aos yuppies dos anos 80, perderam a vergonha e sentiram-se fortalecidos ainda mais nas redes sociais. A solução para quem pede o extermínio de Canudos e golpe militar é a educação, mas analfabeto funcional cresce até em cobertura!

Como surgiu a ideia de usar uma guitarra baiana para gravar o álbum? Ele foi todo gravado com ela? Quem foi seu luthier? Como você ficou conhecendo a guitarra baiana?

CL: A guitarra faz parte do processo de criação do álbum. Para falar sobre o Brasil e mais especificamente sobre a Bahia pensei em gravar o disco com uma guitarra baiana que tivesse o som pesado de uma guitarrona. Desenhei o instrumento e o luthier baiano Fabio Batanj a construiu. Além da guitarra, precisava que os músicos se sentissem desafiados. Como falar sobre o sertão sem estar irmanado com o mesmo sentimento, vamos dizer, agreste? Decidi não ensaiar e gravar o disco ao vivo em estúdio sem edições, da forma mais realista possível inspirado no método Stanislávski de teatro.

Aqui e ali no disco podemos ouvir ritmos brasileiros, contextualizando uma história ambientada quase toda no Nordeste. Pode contar quais ritmos você trabalhou e como?

CL: Canudos propõe um novo estilo de rock pesado com melodias brasileiras e cantado como brasileiro. O som não se afasta das origens da Dorsal, ainda é muito pesado, mas rompe com o padrão de mercado globalizado. O processo de criação do álbum inclui o desenvolvimento de novas batidas de bateria que mesclam maracatu, frevo, baião e a metranca do metal. Alterei a minha forma de cantar para que se parecesse ao canto dos repentistas e não só isso, mas agi como repentista em Canudos ao criar várias melodias no improviso, como o refrão da musica dedicada ao golpista do Planalto. Artisticamente, sinto-se, e não é que isso seja ruim, um elo perdido entre o mundo atual, servil à cultura dominante e o universo artístico que admiro que inclui os modernistas de 1922,  Guimarães Rosa, Glauber Rocha, os tropicalistas, e os Novos Baianos.

Já visitou a própria região de Canudos? Como foi sua preparação / imersão no assunto?

CL: Na verdade nunca estive em Canudos. Li os Sertões e vários outros livros sobre o tema, assisti a documentários, mas o que realmente me motivou, me deu força para seguir adiante foi uma sucessão de sonhos recorrentes sobre essa ser a “missão”, por assim dizer. Tanto para homenagear meus antepassados nordestinos, como para colocar em prática um antigo sonho de repensar a história do Brasil seja através de música, histórias em quadrinhos e animação. Canudos não se encerra nesse disco, se expande e vai além. Posso ser indiscreto...? Projeto regravar Canudos... em Canudos com guitarra baiana e pífanos. Quem sabe... Talvez só Antonio Conselheiro tenha a resposta...

Vai correr pelo país com este show? Alguma chance de show na Bahia? 

CL: Vivo quase recluso há dez anos, o mesmo período em que não toco ao vivo. Os convites para apresentações são vários desde quando voltamos a gravar em 2012, mas ainda não me sinto à vontade, ainda mais nesse momento com tantos fãs de heavy metal fascistas. Eu nunca tocaria para essa gente. Seria como um negro contando para uma plateia branca piadas sobre negros... Se o país mudar, se as pessoas tornaram-se mais humanas, talvez eu me interesse em sair da toca.

Qual sua expectativa para o Brasil para este ano, observador arguto que você é?

Matadeira by Fabio Batanj. Foto Dani Dread
CL: Canudos tece uma comparação entre a destruição do arraial e o impeachment da Presidenta Dilma Roussef. No primeiro disco que gravamos em 2012, após um longo período de inatividade, escrevi sobre o golpe de 1964. Um ano depois, uma parcela de jovens foi às ruas se dizendo apartidária para mostrar sua indignação. Estava na cara que ali havia dedo de conglomerados capitalistas americanos com fascistas brasileiros. Inocentes úteis foram usados. Era a preparação para o golpe. No disco seguinte, Imperium de 2015 comparei a queda da monarquia à futura queda de Dilma que ocorreria um ano depois. Hoje, o cenário é de completa instabilidade. Várias pessoas me dizem que estão arrependidas de terem batido panelas mas que têm vergonha de pedir desculpas, de voltar às ruas... Se Marx me permite, e a história vai de farsa à tragédia, vivemos um ciclo ditatorial light como o de 1965 e não haverá eleições com ou sem Lula. Ou impõem o parlamentarismo rechaçado pela população em plebiscito ou nos transformam em um enorme Paraguai – me desculpem os paraguaios – com a entrega do país, o fim do nacional-desenvolvimentismo e o trabalho assalariado semi-escravo. A Constituição de 1988 não serve para mais nada. 54 milhões de votos rasgados... Canudos vive!

Meu velho, me fala o que você realmente gostaria de dizer em uma entrevista para este centenário jornal baiano mas eu não perguntei.

CL: Certa vez me disseram que eu era um sonhador e me senti honrado. Porque transformei sonhos em realidade. Ou talvez porque a juventude me fortalecesse. Mas o tempo passa e para manter esse pique de independência, - que assemelha-se à vida do trabalhador que pega o trem lotado para o seu ganha-pão, - é preciso superar desafios pessoais e profissionais quase intransponíveis. Hoje, ainda tenho sonhos. E me orgulho disso.

sexta-feira, fevereiro 09, 2018

UM SALTO NA CARREIRA

Hoje no Palco do Rock: Batrákia faz primeiro show do ano com sua nova cantora, Lorena Brandão

Lorena Brandão e a galera da Batrákia, foto Matheus Pirajá
Com dez anos de atividades, a banda local de hard rock Batrákia está pleno processo de reinvenção: Bruno Passy, seu vocalista desde o início, saiu – foi morar no exterior.

Em seu lugar, os quatro membros remanescentes recrutaram Lorena Brandão. Uma boa oportunidade para conferir a nova formação é hoje, no Palco do Rock, por volta das 23 horas.

“Bruno anunciou, só para os amigos mais próximos, a sua mudança para fora do país com 1 ano de antecedência. Tínhamos um prazo para resolver o problema e a cada mês que passava, a coisa complicava. Pensamos em dar uma pausa no projeto, entre outras soluções mais radicais, só que a vontade de continuar o trabalho era grande. Fizemos teste com diversos vocalistas até que, por indicação de outros músicos, conhecemos Lorena”, conta Helder “Dell” Brito, guitarrista da Batrakia.

Cantora que teve breve passagem por uma obscura banda local chamada Agnes, Lorena mostra a que veio em um vídeo no canal da banda no You Tube, no qual o próprio  Bruno anuncia sua saída e a entrada da nova vocalista.

"Ela cantou na banda Agnes, meados de 2008, mas desde então estava sem cantar. Gravou uma música com o guitarrista Fábio Maka, seu registro mais recente, que também serviu para conhecermos mais a voz dela após esses anos todos fora do cenário", diz.

“Já pensávamos em uma mulher no vocal por conta da região extremamente aguda que Bruno cantava, acreditávamos que um vocal feminino poderia casar muito bem e foi o que aconteceu. A adaptação está sendo boa, apesar do desafio em substituir um vocalista após tantos anos de banda. O relacionamento com o grupo não poderia ser melhor e estamos animados com a mudança”, relata.

Pés no chão. O pulo é mais tarde. Ft Matheus Pirajá
Hora de arrumar a casa

No show de hoje, Lorena, Dell, John Daltro (guitarra), Lucas Vieira (baixo) e Chico Brito (bateria) vão mostrar o repertório do álbum Alvo Marcado (2015), em nova roupagem, mais alguma novidade.

“Vamos tocar as músicas do disco com uma cara nova, adaptadas a nova vocalista, porém músicas novas já estão sendo compostas na pegada de Lorena”, conta.

“Mesmo caminhando no mesmo estilo, são vozes e características de interpretação diferentes. Já temos coisa nova no set list e o Palco do Rock será uma grande oportunidade de por em prática o que estamos trabalhando nos últimos dois meses”, acrescenta Dell.

Ainda no primeiro semestre, a Batrákia promete soltar uma faixa inédita. E no segundo, um EP.

"Pretendemos concluir algumas composições novas que já estavam na gaveta, além de muitas outras que Lorena trouxe com ela. A ideia é fechar ao menos um EP até o final de 2018 e lançarmos um novo videoclipe, ainda no primeiro semestre, com essa 'cara nova', escolhendo uma música que represente bem a nova sonoridade da Batrákia. Ainda é cedo para classificar como vai ficar o som mas acreditamos que ganhará elementos novos. A banda já seguia com uma mudança de timbres e pegada antes mesmo de Lorena. O amadurecimento instrumental com o passar dos anos e a chegada de um vocal novo, da escola do heavy metal, vai mexer com o estilo da banda com certeza", detalha.

“2018 será um ano de trabalho em estúdio, arrumação da casa e principalmente produzir conteúdo novo. Queremos voltar com um repertório renovado, transmitir para o público que nos acompanha nos shows e nas redes sociais a sensação que a Batrákia voltou firme, diferente, mas com a mesma essência de sempre. Afinal, o palco não pode se apagar”, conclui Dell.

Batrákia / Hoje, (por volta das) 23 horas / Palco do Rock 2018 / Praia de Piatã / Gratuito



NUETAS

Até 2019, PdR!

A rapaziada da Drearylands em momento de descontração. Ft Tanta Bandeira
A edição 2018 do Palco do Rock fecha hoje com mais nove bandas além da Batrákia aí do lado. A partir das 17 horas sobem ao palco da praia de Piatã: Fora de Skuadro (de Pojuca), Death Tales, Distrito 87, Aqueronte, Graveren, Drearylands, Deformity (Feira de Santana) e Foda-se Cia. Ltda. Está ainda previsto na programação um “encerramento especial”, mas até o fechamento da edição não foi divulgado do que se trata. Separe sua camisa preta – ou branca, vermelha, rosa, azul, verde, da cor que você bem entender, afinal é Carnaval – e curta na paz que já é característica histórica do evento.

Vivendo, Riachão...

Quem for de se aventurar no Pelourinho, hoje tem show da Vivendo do Ócio e Orquestra Sérgio Benutti na Praça Pedro Archanjo. No Largo do Pelô tem o mestre Riachão.

CLÁSSICOS DE UMA ERA INSUPERÁVEL

A era do rock clássico pode ter chegado ao fim, mas seu legado segue cultuado pelos fãs – e pela indústria, que não deixa de  relançar obras que marcaram época

Alguém já disse por aí: o rock é o novo jazz.

Ou seja: roqueiros, aqueles de raiz mesmo, são uma espécie em extinção, tiozões connoisseurs, apegados às suas coleções empoeiradas de CDs, LPs, fitas cassetes e DVDs, todos devidamente esquadrinhados por décadas a fio, cada letrinha de suas respectivas fichas técnicas praticamente decoradas.

Não deixa de ser curioso, de qualquer jeito, como a mesma indústria que canibaliza artistas e gêneros, com apetite insaciável, continue alimentando esse público tão à moda antiga.

Ei, a indústria precisa faturar, correto? Correto!

Eis porque esses discos – e um DVD – figuram aqui: algumas obras simplesmente permanecem.

Mais do que bons vinhos, que simplesmente viram xixi depois de ingeridos, essas obras seguirão inspirando os mais jovens e convertendo crianças boazinhas em capetas. Por que?

Porque, além da excelência artística (muito mais do que técnica), elas, como toda grande obra – e não apenas da música – capturam um zeitgeist, resumem um momento, prestam o inestimável serviço de injetar adrenalina e poesia, dúvida e tesão em corações e mentes prontos para essa carga de vida em estado bruto.

São, em última análise, uma polaroide panorâmica, englobando grandes artistas no auge da forma e tudo o que estava à sua volta na cultura, na política, na sociedade.

Se é assim que deve ser estar às portas da morte, abram alas na escadaria para o paraíso.

Rolling Stones - From The Vault: Sticky Fingers Live At The Fonda Theatre 2015 Lançado em 1971, o LP Sticky Fingers foi um marco na carreira dos Stones, com hits eternos como Brown Sugar, Bitch, Wild Horses e Dead Flowers. Aqui, o quarteto remanescente o executa na íntegra no Fonda Theatre, em Los Angeles, em 2015. Ron Wood, que entrou na banda em 1975, faz (com a classe que lhe é peculiar) as vezes de Mick Taylor, que então estreava em disco na banda. Um registro precioso – e preciso – destes senhores septuagenários. Ótimos depoimentos entre uma música e outra, como os dos possíveis donos da privilegiada virilha que adorna a capa igualmente clássica de Andy Warhol.

From The Vault: Sticky Fingers Live At The Fonda Theatre 2015 / Rolling Stones / Universal / R$ 49,90

Queen - News of The World 40th Anniversary Edition De 1977, News of The World – com a famosa capa do robô gigante – volta às lojas em edição dupla comemorativa de 40 anos. Um dos álbuns mais bem sucedidos da banda – vendeu quatro milhões de cópias só nos Estados Unidos – traz logo na abertura dois hits esmagadores: We Will Rock You e We Are The Champions. Mas o álbum como um todo é uma beleza, com a bossinha (sério!) Who Needs You e o blues Sleeping On The Sidewalk. No CD 2, versões ao vivo de algumas faixas.

News of The World 40th Anniversary Edition / Queen / Universal / CD duplo: R$ 39,90

Metallica - Master of Puppets De 1986, este foi o disco que estabeleceu definitivamente o Metallica como uma das maiores bandas de heavy metal de todos os tempos – entre os fãs de metal. O sucesso mainstream só viria com o LP de 1991, Metallica. Primeiro álbum do seu gênero a ser conservado pela Biblioteca do Congresso, Master combina um ataque absolutamente arrasador com solos líricos (chorados, mesmo), dedilhados ao violão de estilo erudito  e muita crítica social à famigerada era Reagan. Foi também a colaboração derradeira do super baixista original Cliff Burton (autor da instrumental Orion), morto em dezembro daquele ano em um acidente com o ônibus da turnê na Dinamarca.

Master of Puppets / Metallica / Universal / Edição Remasterizada: R$ 29,90

Black Sabbath - The End: Live From Birmingam O rock – não apenas o heavy metal, que eles inventaram – deve até as calças ao Black Sabbath. Sem o Sabbath, o rock seria até hoje apenas uma variação mais suja e acelerada do blues. Com o Sabbath, o rock ganhou peso, perigo e a adorável fama de satanista (pura balela) que até hoje apavora os (cof cof ) “homens de bem”. Neste DVD, o concerto final dos gênios de Birmingham, diante do público de sua cidade natal. Vida longa ao Black Sabbath.

The End: Live From Birmingam / Black Sabbath / Universal / CD duplo: R$ 39,90 / DVD:  R$ 39,90

Tears For Fears - Rule The World: The Greatest Hits Mestres do que de melhor foi feito em termos de  música pop nos anos 1980, o duo Tears For Fears voltou à ativa – até se apresentou (em boa forma) no Rock in Rio de 2017. Aqui, reúnem os principais hits da época áurea, mais duas faixas inéditas: I Love You But I’m Lost e Stay. Ambas são OK, mas o filé é mesmo o material lançado nos três primeiros álbuns, quando Roland Orzabal e Curt Smith lapidaram verdadeiras pérolas de pop perfeito como Pale Shelter, Everybody Wants To Rule The World, Head Over Heels, Mother’s Talk, Sowing The Seeds of Love, Woman in Chains (com o inesquecível vocal de Oleta Adams), Advice for The Young At Heart – e outros. Em 1991, o duo se separou e Roland seguiu com o nome TFF, lançando mais dois álbuns. Dessa fase o CD pinça duas ótimas faixas: Break It Down Again e Raoul and The Kings of Spain. Pra cantar junto.

Rule The World: The Greatest Hits / Tears For Fears / Universal / R$ 29,90

terça-feira, fevereiro 06, 2018

COM CANTORA LÍRICA À FRENTE, ARCANTIS É ATRAÇÃO NA SEGUNDA-FEIRA DE CARNAVAL NO PDR 2018

Winne Granjeiro no PdR 2017. Foto Rafael Almeida
Cria direta do metal sinfônico - operístico de bandas como Nightwish e Epica, a rapaziada local da Arcantis é uma daquelas coisas que de vez em quando pegam o colunista de surpresa: juro que nem sabia que tínhamos disso por aqui.

Com o impressionante canto lírico da vocalista (soprano) Winne Granjeiro à frente, a Arcantis aproveita o show no Palco do Rock (segunda-feira) para lançar seu primeiro álbum, From Ashes To Eternity, que saiu nacionalmente pelo selo paulista MS Metal Records.

Criada no interior (em Muritiba), Winne descobriu o rock através de um tio  – e o metal com os filhos deste, seus primos.

“Lembro até hoje quando ouvi pela primeira vez The Wicker Man (Iron Maiden) e passei o dia inteiro pensando naquele som”, conta.

Em 2008, já em Salvador, começou a recrutar colegas da escola para formar uma banda.

“Na época estava encantada com o symphonic e o power metal, ouvia muito Nightwish, Epica e outros. Além disso, vi na TV (reportagem) falando sobre canto lírico, que me chamou muito a atenção. Pensei então em fazer uma banda de symphonic e de power metal, já que curtia também (as bandas) Blind Guardian e Sonata Arctica”, conta.

Arcantis, foto Carlos Fides e Ana Prado
“Foi aí que passei a estudar, a frequentar curso de extensão em canto (Ufba), ver vídeo-aulas, observar como meus ídolos cantavam, além de treinar em casa e depois treinar solfejo coma a ajuda de Vinicius (Alvarez, guitarrista), meu noivo. Minha mãe no início incentivou. Meu pai também. Acho que parte de minha família gostou”, acredita.

Hora de alavancar

Estabelecida a formação com Winne, Vinicius, Vinicius  Morais (guitarras), Daniel Iannini (baixo), Eric Dias (bateria) e Marcus Felipe (teclados), o grupo registrou um EP em 2015, The Human And The Eagle, que chamou a atenção do pessoal da MS.

Com o disco na rua, a banda está feliz com a boa recepção que o exigente público do metal - e sua imprensa especializada - tem dado ao álbum.

"Em se tratando de metal, bote exigente nisso (risos). A MS teve conhecimento do nosso primeiro clipe da música The Human and The Eagle e se interessou pelo nosso trabalho. Assim, entramos no cast da empresa e passamos um tempo terminando nossas músicas para gravar o nosso álbum, o From Ashes To Eternity, e mais tarde para lançarmos pela MS Metal Records. Depois que finalmente o álbum foi lançado, passamos a ouvir boas críticas de quem adquiriu o CD e de produtores. O Whiplash deu nota 9 pelo trabalho e elogiou muito. Até agora, considerando que o público de metal é exigente demais, só ouvimos coisas boas e elogios", relata Winne.

Sobretudos a postos para o PdR 2018. Ft R. Almeida
Agora, lançado o CD, o sexteto olha pra frente cheio de planos: “Pensamos que 2018 é a hora para alavancar de vez a banda, tira-la daqui para tocar em outros lugares e claro, um dia tocar fora do país, até porque estamos vendo que o álbum está tendo boa recepção no mercado internacional, como no Japão”, afirma.

“Sou grata por todas as pessoas e acontecimentos que possibilitaram a Arcantis a chegar aqui. Grata aos membros da banda, Vinicius Alvarez, Vinicius Moraes, Marcus Felipe de Menezes, Daniel Iannini, Rafael Amorim, a Eric Dias que foi membro da banda e que gravou a bateria para o álbum, mas que não pôde continuar conosco por motivos pessoais, depois tendo sido substituído Por Rafael, que é um excelente músico, à MS Metal Press de Eduardo Macedo Cronemberger, ao estúdio Revolusom de Marcos Francos, nosso Marcão e a Ícaro Bastos da banda Trigger. Além disso, gostaria de falar que tenho esperanças de que o Metal fique mais forte e unido, porque só assim construiremos um movimento firme e forte. Temos muitas bandas locais excelentes e um público para construir isso. E agora no Palco do Rock, onde estaremos lançando o nosso álbum de estréia, esperamos ver todos lá e que todos possam nos prestigiar e prestigiar as outras bandas. E vai ser em Piatã, retornando para sua origem. Melhor momento não há. Estaremos também lá vendendo nossos CDs e camisas de forma a divulgar ainda mais o nosso trabalho. E no momento estamos também a procura de bandas parceiras e patrocinadores, e enquanto isso vamos seguindo, realizando nosso projeto e sonho”, conclui.

Arcantis / Segunda-feira (12), no Palco do Rock 2018 / Praia de Piatã / Gratuito / www.facebook.com/arcantianos



NUETAS

No casario do Pelô

Menino Ronei, talento de gente grande. Foto Rana Tosto
Folia instalada, não tem  pra onde correr? Se jogue. As dicas da coluna Coletânea vão para duas opções: Circuito Batatinha (Pelourinho) e Palco do Rock. O Pelô abrigará shows de alguns queridinhos da coluna, como Ronei Jorge, Maglore e Giovani Cidreira – juntos (domingo, 22h30, Largo do Pelourinho) e Vivendo do Ócio (terça-feira, Praça Pedro Archanjo). Haverá mais, mas até o fechamento da edição, a programação completa não havia sido divulgada.

Nas areias de Piatã

O PdR 2018 voltou para Piatã, e já divulgou algumas boas atrações além da Arcantis aí ao lado. Destaques do sábado: Ronco, Inner Call, Lo Han. Nos dias seguintes, confira: Barulho S/A, Batrákia (estreando cantora nova), Drearylands, The Cross, Pastel de Miolos, Jato Invisível, Indominous, Veuliah e Benete Silva. Programe-se.

domingo, fevereiro 04, 2018

5ª MOSTRA DE GUITARRA BAIANA É NA SEGUNDA, DE GRAÇA

Música Símbolo do Carnaval, a “guitarrinha” já não goza de tanto prestígio. Iniciativas como a de Júlio Caldas a mantém viva

Júlio Caldas, na função. Foto André Oliveira
Um dos símbolos do Carnaval, a guitarra baiana  – e sua música, mais harmônica do que percussiva – seguem em plano bastante desfavorável no cenário.

Um de seus maiores divulgadores na última década, Júlio Caldas promove  segunda-feira a quinta edição da  Mostra de Guitarra Baiana.

No palco, Júlio se faz acompanhar de uma banda-base e mais quatro guitarristas: Marcos Stress, Tathi Alves, Ricardo Marques e Eliel Nunes.

Na banda, outros grandes músicos: Durval Caldas (violão), Ricardo Hardmann (percussão) e Fábio Batanj (baixo). Este último é ainda o grande luthier de sua geração.

“Mantendo a característica da Mostra, o repertório será apresentado com a minha abertura ao lado da banda base tocando clássicos do blues, seguindo com as apresentações dos convidados que irão tocar os clássicos da guitarra baiana, como os frevos”, detalha Júlio.

Segundo Júlio, cada guitarrista selecionado por ele para esta edição da Mostra  traz qualidades próprias: “Os critérios adotados para a seleção foram as diferentes qualidades de cada guitarrista para traçar um panorama da produção atual”, afirma.

“Eliel Nunes é luthier, canhoto, toca com as cordas invertidas e é excelente. Ricardo Marques é um grande mestre, defensor da causa há muitos anos. Thathi é excelente guitarrista, vem se enveredando pelos caminhos da guitarra baiana e representa a força feminina dentro do cenário. Já Marcos Stress representa a novíssima safra”, elenca.

Guitarrinha sem prestígio

Thathi (centro, com a banda Os Marchistas), toca na Mostra. Foto V. Abreu
Realizada em edições anteriores com direito a quatro noites e, portanto, incluindo vários outros músicos, esta quinta Mostra de Guitarra Baiana é resultado dos esforços individuais de Júlio e parceiros.

“Faltou apoio. As três primeiras edições foram produzidas de forma 100% independente, com recursos próprios. A quarta edição (2012), realizei através do edital de projetos calendarizados do Fundo de Cultura do Estado da Bahia. Nos anos seguintes não dispunha de recursos próprios e não consegui mais aprovar o projeto em editais”, relata.

Incentivado por amigos, Júlio lançou uma campanha de crowdfunding para viabilizar a volta da Mostra.

“Ao final, foi captado apenas 8% do valor pleiteado. Com essa arrecadação tornou-se inviável fazer as quatro datas. Adaptei o projeto e, com a colaboração dos convidados e apoio da Casa da Música, em 2018 realizaremos a Mostra de Guitarra Baiana em apenas uma noite”, conta.

Pelo jeito, o hype em torno da guitarrinha, que ensaiou um retorno aos holofotes há alguns anos, impulsionado pelo sucesso da Baiana System, bailes Retrofolia (da banda Retrofoguetes) e outras iniciativas, ficou no hype  mesmo .

“Na verdade a guitarra baiana só teve algum status no ano em que o carnaval a homenageou. O que noto é que a cada ano a gente vê menos representantes do movimento no Carnaval, micaretas e  resto do ano”, percebe Júlio.

Guerreiro, Júlio segue na batalha. No Carnaval, se apresenta dia 8 no Furdunço e mais um dia em palco de bairro, em local e data a ser divulgado.

“Também estou em processo de gravação de disco novo para lançar ainda em 2018. Vai se chamar A Música dos Meus Amigos. Nele vou gravar músicas de amigas e amigos que conheci ao longo da carreira”, conclui o músico.

5ª Mostra de Guitarra Baiana / segunda-feira, 18 horas / Casa da Música (Lagoa do Abaeté) / Gratuito

sexta-feira, fevereiro 02, 2018

O BAILE DA VOZ

Lazzo faz baile de Carnaval no Rubi daquele jeitão todo dele: na manha, no dengo

Dono da garganta mais aveludada do Brasil, Lazzo Matumbi sempre curtiu Carnaval – chegou mesmo a fundar um bloco.

Amanhã, ele coloca esse amor pela festa em prática, no baile pré-carnavalesco Vem Dançar, no Café-Teatro Rubi do Hotel Sheraton.

Como está explícito no título da festa, a ordem é se largar na pista – por isso mesmo as mesas e cadeiras que costumam a plateia dos shows no elegante salão do Campo Grande vão dar um sumiço nesta noite.

“É um baile de carnaval mas como minhas músicas não são exatamente carnavalescas, peguei algumas músicas e fiz uma releitura: boto na praia do reggae, do galope, levo para o meu groove –e fica  dançante do mesmo jeito”, avisa Lazzo.

Como se o homem de hits eternos como Alegria da Cidade, Do Jeito que seu Nego Gosta, Me Abraça e Me Beija e Abolição ainda precisasse botar mais groove no som.

“Nesse baile a gente vai na mesma levada que eu fazia no (bloco) Coração Rastafari: sem muito frenesi, um som mais leve e mais gostoso para dançara  a noite inteira. Vem dançar, que vai ser legal”, convida o cantor.

No palco, Lazzo vem com uma banda compacta, mas afiada: Maninho (Hermano Clindro, guitarra), Luizinho (baixo), Eddie (teclados) e Ted Santana (bateria).

“Com quatro músicos fica mais fácil de adaptar algumas coisas, até porque nesse período tá todo mundo (músicos) num corre-corre danado, muita gente ocupada. Então vamos fazer assim, compacto, com as pessoas bem grudadinhas. Vai ser um baile bem decente”, garante.

Sobre o repertório, além dos hits de carreira, Lazzo prefere não ficar citando os nomes das músicas.

“Vai ser uma experiência. Então tem minhas músicas e clássicos de outras pessoas. Não queria dizer os nomes para não perder a surpresa da hora. Sabe aquela reação ‘porra, que massa, aquela música!’”, ri.

O dia seguinte

Criador do já citado bloco Coração Rastafari, Lazzo conta que deu um tempo da avenida e dos trios elétricos.

“Não tenho mais paciência para aquele congestionamento de trio elétrico. Marcava com os foliões pra sair 21 horas, aí o trio, fosse  doado pela prefeitura ou pelo governo, chegava 11 da noite. Aí sua credibilidade perante os foliões ficava abalada. Resolvi não me comprometer mais com coisas que não tenho controle”, relata.

“Hoje,  quanto mais eu puder estar tocando assim, de forma tranquila e relax, melhor. Essa é a minha onda: na manha, no aconchego, no dengo”, arremata.

O último álbum de Lazzo foi o espetacular Lazzo Matumbi (2013, Garimpo Música), produzido por Jorge Solovera.

Agora, finalmente, o músico trabalha no material que pretende gravar em seu sucessor.

“Tem uma (música) que fiz com Jorge Portugal chamada 14 de Maio, uma reflexão sobre o dia seguinte à Abolição (dia 13 de maio de 1888). É para pensar scomo vivemos nesse país, como conduzimos nossa história e  para onde queremos ir. Vai ser uma obra sobre o momento do Brasil, mas também sobre  o amor, que nunca deixamos de cantar”, conta.

“O disco novo sai esse ano. Em maio devemos soltar a primeira música. Hoje não tem mais gravadora, então você pode ir lançando duas, três músicas aos poucos, antes do disco”, conclui.

Lazzo Matumbi: Vem Dançar / amanhã, 20h30 / Café-Teatro Rubi / R$ 80 / Vendas: Bilheteria: Café-Teatro Rubi (3013-1011), das 14h às 19h (em dias de apresentação, até às 20h30)